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Sobre a comunicação

Um pequeno prefácio

Quando trabalhei na área de garantia da qualidade, na implantação de sistemas da qualidade (a famosa ISO 9000), aprendi um conceito que não está presente no Michaelis: a diferença entre eficácia e eficiência. Basicamente, eficácia é “fazer a coisa certa” e eficiência é “fazer da melhor forma”.

Sendo assim, imagine que seu objetivo seja cortar um pão como uma faca. Se você corta o pão, mas corta o dedo junto, você foi eficaz – pois atingiu seu objetivo – mas não foi eficiente, pois cortar o dedo não fazia parte do plano inicial. Ou então imagine uma corrida onde todos os pilotos completam todas as voltas: todos foram eficazes, porém tiveram níveis diferentes de eficiência: o primeiro foi mais eficiente que o segundo e assim por diante.

Sobre a comunicação

Neste nosso mundo atual muito se fala sobre a comunicação. Ela se tornou objeto de estudos profundos, visto que a mesma quando bem feita aumenta a produtividade de qualquer coisa em qualquer área.

Desta forma, os especialistas dizem que para haver comunicação é preciso que haja um emissor, um receptor, uma mensagem, um meio e etc. À partir deste estudo, a comunicação técnica obteve grande avanço – seja por meio de manuais escritos, desenhos técnicos ou mesmo de forma verbal. O problema é que fora deste contexto a comunicação não tem a mesma eficiência – nem a mesma eficácia, eu diria.

Quando lidamos com linguagem técnica, lidamos com uma comunicação matemática. As coisas são ou não são como num sistema binário (que trabalha apenas com 0 e 1, sim ou não), sem que emissor e receptor possam interferir com interpretações pessoais sobre a mensagem. Mas não é assim quando se trata de relacionamentos humanos. Nestes, a mensagem assume significados diferentes para emissor e receptor.

Nós dificilmente ouvimos o que nosso interlocutor está dizendo. Geralmente, ouvimos o que “achamos que ele quer dizer” – e é aqui onde começam os equívocos na comunicação. Isso acontece porque cada ser humano tem conhecimentos e vivências diferentes e, a partir disto, busca interpretar o mundo à sua volta. Essa interpretação atinge também as mensagens que recebemos diariamente e isso se aplica a todos os tipos de comunicação citados anteriormente.

Durante um diálogo – tomo por diálogo qualquer situação onde ocorra comunicação, ou seja, qualquer atividade em que haja emissor, receptor e mensagem, como uma conversa (formal ou informal), uma leitura, assistir a um filme ou a uma peça de teatro, etc. – existem basicamente dois tipos de comportamentos adotados pelo ser humano: o separado e o ligado.

O comportamento separado é aquele em que o receptor recebe a mensagem e tenta – as vezes de maneira automática – encontrar uma brecha que possa explorar com o intuito de derrubar o argumento do emissor. Este comportamento é comum, para citar alguns exemplos, entre discussões de casais, pais e filhos, advogados de defesa e acusação, etc. Ou seja, o comportamento separado está, quase sempre, presente num contexto de conflito.

O comportamento ligado, como os próprios nomes sugerem, é exatamente oposto ao comportamento separado. No ligado, o receptor está realmente interessado em compreender o ponto de vista do emissor. Isso não quer dizer que o receptor vá concordar com este ponto de vista, mas qualquer julgamento que ele venha a fazer sobre a questão será tecido apenas depois de compreender de fato do que se trata a questão. Este é – ou deveria ser – um comportamento comum entre mestre e aprendiz.

Partindo destes dois princípios, para garantir a eficácia e aumentar a eficiência da comunicação, é necessário fazer uma análise de cada situação e uma escolha consciente entre os dois tipos de comportamento deve ser feita.

Sabendo qual a questão em pauta, e escolhendo o melhor comportamento para adotar durante o diálogo, as chances de atingir o objetivo serão muito maiores. Alguns exemplos:

Se você recebeu uma ligação do tipo “tele(chato)marketing”, elegantemente separado (afinal o pobre operador é um ser humano e tem família pra sustentar) destrua seu interlocutor e coma-lhe o fígado sem dó.

Por outro lado, se tua mulher (namorada, amante, esposa ou todas-as-anteriores) está te pentelhando, gentilmente ligado compreenda o por quê daquela toalha molhada e embolada em cima da cama a incomodar tanto. Desta forma, as famosas DR terão um final feliz, ao melhor estilo “assassino profissional” – rápido, limpo e sem dor – e você poderá, enfim, assistir ao jogo de domingo em paz.

Robson Ribeiro

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Faça o que tu queres, mas não diga o que tu pensas.

Hoje eu posso ver: em matéria de crescimento, não há método mais infalível que o de tentativa e erro – erro entre aspas. Nós, seres humanos, somos dotados de livre arbítrio – mais arbitrado que livre, é verdade, mas esse não objeto de discussão agora.

Esse livre arbítrio nos faz querer dirigir nossa própria vida. Uns mais, outros menos, o fato é que nenhum de nós gosta de ouvir os outros nos dizendo o que devemos fazer, mesmo que aquela frase “eu lhe falei…” venha a ferir nossos ouvidos. Nós queremos, sempre, fazer o que nos “dá na telha”. Não importa se algo é bom ou ruim, na visão alheia. Queremos ter nossa própria visão das coisas. Por isso é comum que, em certa fase da vida, passemos a contestar nossos pais. Por isso é comum que subordinados não se deem bem com seus chefes e até mesmo pacientes com seus médicos.

Há situações em que fazer o que nos dizem (mandam) é inevitável. Ou nós “ouvimos” nosso chefe, ou ouvimos nosso estômago roncando. Ou nós “ouvimos” nosso médico ou, provavelmente, não ouviremos nada além das paredes de nosso caixão.

Mas, para crescer (amadurecer), é importante que façamos aquilo que desejamos fazer. Aviso aos sofistas de plantão: não falo de experiências criminosas, tampouco sobre Aleister Crowley e seu “faça o que tu queres pois é tudo da lei”. Isso é OUTRA coisa. Falo de coisas (coisas, aliás, que vivi e estou vivendo) como “se quer casar, case”, “se quer mudar de emprego, mude”, “se quer largar a faculdade, largue”, “se quer morar no exterior, more”.

Não é sobre estar certo ou errado – ISSO é muito relativo. Em toda escolha se ganha de um lado e se perde de outro. Só não perde nem ganha quem fica parado. É sobre viver a vida de forma que valha a pena, sobre ter histórias pra contar. Quem não vive, vive de estórias.

Esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto trata sobre o “outro lado da moeda”.

Quem nunca ouviu aquela frase: “um dia você será pai também…”?

Pois é. Muitas vezes nós queremos – e fazemos – algumas “besteiras”, ou “loucuras”. Nessa hora, SEMPRE tem alguém para nos dar um conselho, ou até mesmo tentar nos impedir de fazer tais coisas. Sobre isso já falei.

Mas e quando estamos na outra margem do rio? E quando vemos que alguém está prestes a fazer – ou fazendo – uma “besteira”?

No “auge” de meus “longos” 24 anos de idade, eu aprendi uma coisa: não fale NADA. Melhor, dê apoio. Acontece que, se você notou que a pessoa está fazendo uma “besteira”, e essa pessoa é importante para você, você automaticamente sentiu uma vontade incontrolável de ajudá-la – isso é normal. A melhor maneira de ajudá-la, você pensa, é evitando que ela faça tal besteira. Para evitar, você diz pra ela não fazer. PRONTO! Agora sim ela irá fazer – ninguém gosta que os outros lhe digam o que fazer. E pior, você agora é um “inimigo”, e as pessoas geralmente querem distância de seus inimigos – a menos que possam ACABAR com eles. Em todo caso, tua chance de ajudar se reduz a zero. Portanto, controle-se.

Nessa hora, você deve dar apoio, pois ganhará simpatia. Ao ganhar simpatia, você tem um salvo-conduto pra permanecer ao lado da pessoa. E zelar por ela. Se ela quer cair, deixe que caia, mas esteja por perto para ajudá-la a se levantar. O machucado em seu joelho será a melhor forma de ensiná-la que ela não deve cair e acredite, ela vai lembrar de você sem que você diga “eu lhe falei…”. E será grata por isso.

Geralmente, quando vemos uma pessoa num labirinto podemos ver, também, a saída do labirinto. Se há saída, não se preocupe em mostrar pra pessoa. Deixe que ela encontre por si só, pois só assim ela vai aprender o caminho. É mais ou menos como andar pela cidade com um GPS: o dia que ele não estiver lá, você também não estará onde tiver de estar.

É óbvio que não falo sobre “como educar seus filhos” ou crianças em geral. Falo sobre como ajudar pessoas que amamamos, como parentes, amigos, namorados, cônjujes, etc.

Nesse contexto, é melhor ajudar um novo sábio a se levantar que manter um ignorante de pé.

Robson Ribeiro

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Eu sou o desapego

De volta pr’esta terra fria e distante não consigo deixar de pensar numa coisa: eu sou o desapego. Criei, pra tentar explicar a tortuosidade da vida, uma teoria. A teoria da espiral. Coisa básica: nós sempre rodamos e sempre chegamos no mesmo ponto, porém, um nível acima. Alguns dirão que podemos também descer os níveis, mas eu não penso assim. Penso que estamos sempre subindo, mesmo quando parecemos descer, assim como os números negativos que tendem a zero e depois deste passam a ser positivos. O fundo do poço é sempre o meio do caminho, não o final. Ainda que alguns insistam em ficar por lá.

Pois bem. Eu sou o desapego. O Sr. Michaelis assim define o desapego:

de.sa.pe.go
(ê) sm (des+apego) 1 Desafeição, desamor, indiferença. 2 Desinteresse. 3 Desprendimento. Var: despego. Antôn (acepções 1 e 2): amor, interesse

Eu sou o desapego nº3. Desprendimento. Os outros dois, pra mim, não existem. Explico: há que se existir muita afeição, muito amor e muito interesse para se ter coragem de desprender-se das pessoas amadas tirando, assim, de suas pernas, os grilhões que lhe impedem o desenvolvimento. Sou o desprendimento porque gosto da liberdade minha e alheia. A liberdade faz parte da genealogia do crescimento, este a força que nos impulsiona na espiral da vida.

É claro que nem sempre pensei assim. Na verdade, sequer pensei sobre isso por grande parte da minha vida e, por isso mesmo, agi sempre de forma totalmente inversa. Tive a sorte, porém, de encontrar pessoas que, conscientemente ou não, me fizeram o grande favor de libertar-me dos grilhões chamados “relacionamentos humanos”.

Sim, os relacionamentos humanos são, em sua maioria, grilhões que nos acorrentam em determinados tempo e espaço, nos impedindo de trilhar nosso caminho pela espiral da vida. Isso acontece porque o ser humano é carente. O ser humano é um animal carente, tem medo de ficar sozinho. Pelo menos o ser humano atual. Por isso tendem a se apegar uns aos outros, de forma que a força gravitacional dessa união impede a cada indivíduo que dela faça parte de alçar seu próprio voo.

Os relacionamentos humanos precisam ser repensados, re-sentidos (não ressentidos).

Em primeiro lugar, devemos compreender a teoria da espiral. Nós SEMPRE voltamos ao mesmo ponto, o que quer dizer que SEMPRE vamos reencontrar aquelas pessoas especiais, que marcaram nossa vida. Ter esta convicção torna tudo mais fácil. Eu sei que vou te reencontrar, e que você (e eu) estará um nível acima na espiral, terá crescido.

Saber que vais reencontrar estas pessoas, por si só, já é um bom pensamento. Saber que vais reencontrar, além das pessoas, um relacionamento mais maduro e portanto mais prazeroso, é motivo suficiente pra deixá-las viver o que têm pra viver. Paralelamente, viverás também o que tens pra viver, e amaducerer também a si próprio.

O segundo ponto é quanto a memória. A memória é testemunha-chave da consciência, nosso advogado-do-diabo (chamado por Freud de superego). Portanto, tua memória deve registrar bons momentos vividos ao lado das pessoas que amas, pois é muito mais fácil desprender-te das pessoas quando tens certeza de que não perdeste tempo precioso com bobagens. Tempo perdido nós sempre vamos tentar recuperar. Impossível. Recuperar tempo perdido é perder tempo vindouro, o que dá na mesma, o prejuízo está sempre lá.

O desapego deve ser praticado em todos os relacionamentos. Tenho que dizer que o desapego não se aplica apenas aos casos cuja separação é o melhor a ser feito. Ele se aplica mesmo em relacionamentos cuja presença é imprescindível, como o casamento.

O último ponto, porém a ordem dos fatores não altera o produto, é o seguinte: para que consigas desapegar-te das pessoas, deves estar muito bem consigo mesmo. Deves pensar, estar ciente e consciente de tua própria vida, do que tens e do que precisas, para que possas viver tua própria vida com propriedade.

Robson Ribeiro

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Pequeno ensaio sobre a Alma Gêmea

Alma Gêmea é como chamam a pessoa que nos completa. Aquela pessoa que, quando veio ao mundo, foi separada de você como fazem os médicos com os gêmeos siameses. Aquela pessoa que se parece muito com você mas que é, porém, diferente o suficiente pra te completar – afinal figurinha repetida não completa álbum.

Alma Gêmea é a sua outra parte. É aquilo te falta pra ser inteiro. Aquilo que te falta pra ser feliz, pois ninguém pode ser feliz pela metade.

Alma Gêmea é aquela pessoa que aparece na tua vida e você não sabe de onde veio. É aquela pessoa que te faz tão bem que você se pergunta: “como pude viver sem ela por tanto tempo?” e “como será minha vida se ela se for um dia?”. Aquela pessoa que te faz criar perguntas sem respostas.

Alma Gêmea é a pessoa que te ensina o que é o amor. Amor verdadeiro. Talvez depois de uma boa amizade, talvez depois de uma paixão avassaladora, talvez depois dos dois ou de qualquer coisa que possa existir entre eles – amizade e paixão. Amizade e paixão são coisas – alguns hão de discordar – corriqueiras. Perto do amor, são.

Por isso a Alma Gêmea é tão especial. Amizade e paixão qualquer pessoa pode oferecer e até mesmo ensinar. Mas o amor, só a Alma Gêmea ensina, oferece e recebe. Preciso deixar claro que não falo do amor “agapé”. Aliás, vou tomar a liberdade de criar um nome pra este tipo de amor do qual estou falando. Este é o amor “geminiano”.

Alma Gêmea é a pessoa que te dá e recebe, num ciclo que não se pode determinar começo e fim, o amor geminiano.

Amor geminiano é aquele que te faz pensar na pessoa todo o tempo, e durante todo o tempo, sentir-se feliz e sorrir à toa. É aquele que te serve de inspiração, que te dá forças para correr atrás de seu sonho, que te faz acreditar ser capaz de conquistar qualquer coisa. Amor geminiano é aquele que não exige mais do que precisa pra existir. Amor geminiano é aquele que te faz querer cuidar de si e de sua Alma Gêmea pra sempre.

Aliás, voltemos ao foco.

Alma Gêmea é aquela pessoa que te faz sentir alguém importante, aquela que vê tuas qualidades e defeitos, desprezando estes e exaltando aqueles. É aquela pessoa que sempre sabe o que dizer mesmo quando fica em silêncio. É aquela que fica em silêncio mesmo quando há muito o que dizer.

Alma Gêmea é aquela pessoa que sempre sabe o que se passa com você, de perto ou de longe. É aquela pessoa telepática que sempre ouve teus pensamentos, aquele detetive que sempre desvenda os seus mistérios mais íntimos – e o faz com uma habilidade incrível!

Até aqui acho que não tem muita novidade. Todo mundo, quando pensa na Alma Gêmea, deve pensar algo parecido. Mas tenho ainda uma consideração a fazer. Neste ponto, poucas pessoas devem pensar com alguma coerência, e por isso mesmo acabam afastando pra sempre sua Alma Gêmea.

Almas Gêmeas são assexuadas – assim como os anjos. Almas Gêmeas não existem para o casamento, apenas. Ainda que na maioria dos casos este seja o seu fim – ou começo! Alma Gêmea pode ser sua esposa (ou esposo), mas também pode ser sua mãe, seu pai, seu irmão, irmã…Alma Gêmea pode ser um amigo ou amiga, mesmo que amizade seja muito pouco pra definir o que sentem um pelo outro. Amor geminiano me parece melhor.

Isso tudo é um tanto complicado, eu sei. “Como assim, então eu não estou casado com minha Alma Gêmea?”. Talvez não – e isso não é o fim do mundo, tampouco do romance! Almas Gêmeas não estão ligadas ao romance, mas ao amor. Quem pode afirmar que ama apenas uma pessoa?

Eu não.

Robson Ribeiro

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Compaixão e não-compaixão

Isso sim foi um tapa no rosto! Dizer que a compaixão é um mal que destrói a sociedade… Esta afirmação vai de encontro com tudo aquilo que penso – e sempre pensei – sobre o mundo! Uns dizem que Nietzsche foi um grande filósofo, outros que ele escrevia dopado, ou em meio a crises nervosas.

Eu não sei o que pensar, e não tenho vergonha disto. Antes assumir a dúvida – dizer não sei é muito difícil para aqueles que procuram desesperadamente uma auto-afirmação – do que ficar regurgitando palavras engolidas e não digeridas por aí. Digerir, aliás, é difícil e leva tempo! Será que alguém pode digerir a vida na casa dos 20? Acho que não. Não se pode ser um gênio na arte de viver como se pode nas artes da música ou pintura, por exemplo.

As vezes me sinto vítima dos filósofos. Tenho uma linha de pensamento lógica e racional. Eles, os filósofos, são lógicos em seus argumentos, o que me leva a concordar com o que dizem – ou melhor, escrevem. Isso é perigoso. O ser humano não é máquina – não é lógica pura e simplesmente.

Não sei se são filósofos ou sofistas esses caras. É tido por sofista aquele que faz uso da dialética e da retórica para subjugar seu interlocutor e fazer com este acredite em seu ponto de vista. Mas o filósofo se vale dos mesmos artifícios. É, portanto, uma diferença de cunho ético/moral – diz-se que o filósofo tem objetivos nobres e o sofista, não.

Acontece que ética e moral são conceitos construídos à base de vivência e maturidade, aliados a estudos e debates – talvez até algo mais, não sei. Mas como podem achar alguns que têm condições de “criar um próprio código ético/moral” sem estes ingredientes? E, mais do que isso, querer empurrar esta massa sem fermento e forno goela abaixo daqueles ao seu redor? Isto é petulÂNCIA, ignorÂNCIA e acima de tudo ÂNSIA de mostrar que é alguma coisa diferente, especial. É preciso ter calma. Ter paciência. Descer do muro apenas quando tiver estatura para isso!

De volta ao início: posso entender o mal que a compaixão causa ao mundo. Compaixão leva à doação, e doação é gratuidade por excelência. Mas nada que vem de graça tem muito valor. É como a história do “dar o peixe e do aprender a pescar”. Dar o peixe resolve a curto prazo, mas a longo prazo o crescimento necessário não chega nunca. O que esperar de um país que tem bolsa família? Alguém vai querer se mexer? Se ninguém se mexer, o país anda?

Mas o que fazer? Sem o alimento necessário a pessoa não pensa. Sem pensar não cresce. Mas se ganhar o alimento, não pensa em obtê-lo por conta própria, e se não o fizer, não cresce! Como fazer do ciclo vicioso uma espiral crescente, “pro alto e avante” como diz o “Superomão”?

Compaixão seguida de “não-compaixão”.

Compaixão sim. Não concordo (pelo menos não ainda, quem sabe?) que a “teoria da seleção natural” se aplique aos seres humanos. Tampouco concordo que entre seres humanos se aplique a lei do mais forte. Disse Aristóteles que existem diferenças naturais – físicas e mentais – entre os homens. Digo eu que isso não me basta para aceitar a riqueza de uns e a miséria de outros.

Concordo com Nietzsche quando este ataca o cristianismo. A Igreja quando instituição se mostrou muito nociva ao andamento da sociedade – e pensar que Platão apoiava a idéia de controlar o povo por meio da religião.

Mas a compaixão ainda é necessária no mundo em que vivemos. Precisamos ter compaixão para quebrar a inércia – dar um impulso inicial no crescimento, como aquele tapinha que os médicos dão no bumbum do recém-nascido.

Porém, com a roda em movimento, não podemos nos acomodar – inércia existe quando não podemos sair do repouso e quando não podemos sair dum mesmo movimento, e para seguir a espiral do crescimento é necessário sempre um movimento diferente – e este é o momento de praticar a não-compaixão. Quando as coisas não mais vierem de graça, sairemos da inércia novamente e, assim, cresceremos.

Nietzsche se considerava um escritor póstumo – dizia que estava à frente de seu tempo. Creio que estava muito à frente. O mundo sem compaixão poderá existir algum dia, mas apenas no dia em que todos tiverem a oportunidade de pastorear a própria vida.

Robson Ribeiro

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Seja bem-vindo, amigo conflito!

conflito
s. m.
1. Altercação, desordem.
2. Pendência.
3. Choque.
4. Embate.
5. Luta; oposição; disputa.

Acho que este dicionário esqueceu de mencionar a palavra “dor” nesta definição.
Ha algum tempo notei uma coisa: nós, seres humanos, só nos movemos quando há conflito – seja ele de qualquer natureza. Nós só crescemos através do conflito. Descobrir isto me fez muito mal. Afinal, por que só podemos crescer através do conflito e, por consequência, através da dor?
Em tudo que olho, eu o vejo sempre lá: relação de pais e filhos, conflito. Relação de amantes, conflito. Relação de irmãos, conflito. Há, então, conflito, porque há a amor? Não. Relação de chefe e subordinado, conflito. Relação entre desconhecidos, “que surpresa”, conflito. Há então conflito porque há relação. Isso me parece mais óbvio e lógico.
Ao longo da história (des)humana o conflito está sempre presente. Analisando a sociedade de forma parecida com que fez Aristóteles na sua “Política”, desde a família até o mais amplo círculo da vida social podemos encontrar o conflito. De uma briga doméstica a uma Grande Guerra – ele está lá, onipresente como o Criador.
Não gostava – falo no passado, e explico daqui a pouco – do conflito porque este sempre trouxe (e ainda traz) consigo uma grande (over)dose de sofrimento e dor, que geralmente chegam antes – e sem serem chamados – do crescimento. Como a longo prazo não basta cuidar apenas dos sintomas, foquei na causa do problema, e vi no conflito meu inimigo – apesar de ser um mau necessário.
Então passei a evitar o conflito a todo custo. Levei uma vida de cordeiro. Muito ganhei em doçura, e muito perdi em firmeza. E como diz aquela famosa frase atribuída a Che Guevara (digo atribuída porque perdi minha fé no pseudo-comunismo faz tempo), “Temos que endurecer sem perder a ternura”. É necessário que se mantenha a firmeza ao lado da doçura, como gêmeas siamesas. Descobri isso ha poucos dias.
Acontece que “eu subi a montanha mais alta”, como diria Bono Vox, e nela encontrei um mestre – até mesmo um mentor espiritual – que me deu uma valiosa lição. Valiosíssima! Numa única frase ele elucidou o meu conflito (olha ele aí).
Assim disse Martin Luther King Jr., famoso ativista negro norte-americano, que fez de sua vida uma luta contra a segregação racial – um câncer nos E.U.A. – e um dos maiores responsáveis pela estadia de Barak Obama na Casa Branca:

“Nós temos que mudar nossa forma de lidar com o conflito, sem violência, sem agressão”.

Mágico!
A teoria de não-agressão não é de autoria de King, mas sim de Henry David Thoreau, conterrânio de Martin. Consiste basicamente em não agredir seu opositor – porém sem abrir mão de seus direitos e necessidades. “Endurecer sem perder a ternura”. Ser doce e firme. E sem dor.
Mahatma Gandhi valeu-se deste conceito para libertar a Índia do domínio inglês, e serviu de inspiração para Martin, que alcançou seu intento da mesma forma. Martin, porém, foi assassinado antes de ver sua obra completa – e previu isso. Martin foi doce como um cordeiro, e firme como um cordeiro. Assim como Jesus.
Sinto-me mais à vontade com o conflito agora, pois descobri como lidar com ele: sem agressão! Não preciso evitá-lo, apenas ser firme e doce, sem violência, e assim desfrutar do crescimento que ele proporciona. Posso dizer que o conflito é necessário, sem necessariamente ser mau. Basta mudar a forma como lidamos com ele. Conflito aliás é uma idéia, e como qualquer outra, é boa ou má de acordo com o homem que a carrega.

Robson Ribeiro

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Sem começo nem fim

Quanto mais eu tento, mais eu fracasso. Quanto mais eu busco, mais eu perco. O que mais me intriga é saber que não estou só neste ciclo, por mais que eu pense ser eu a pessoa por trás disso tudo.

Não nego que muitas vezes a única resposta que eu encontro é aquela que me faz enxergar que eu vejo o que quero ver. Só que essa resposta se mostra tão frágil algumas vezes, então me sinto obrigado a pensar e pensar e pensar…
Hoje visitei uma pessoa desconhecida. Apesar da falta de diálogo, conversamos horas a fio. Suas inquietações encontraram reflexo no meu coração e a recíproca é verdadeira. Como explicar isso então? Como explicar que o fruto das minhas visões se faz presente em outra pessoa? Ou será que eu plantei este fruto num local de onde ele não é nativo? Acho que não.

O que acontece com o ser humano? Alguns se mostram tão parecidos com o próximo, e outros tão diferentes. Acho normal uns gostarem de verde e outros de azul, mas não aceito que alguns simplesmente não sejam capazes de solidarizarem-se com a tragédia alheia.

Em minha breve vida, regada com um punhado de dúvidas e adubada com uma porção de ignorância, não vejo resposta na fé religiosa e tampouco na fé científica – nossa trindade atual. Está além de minha capacidade pensar racionalmente neste momento.

Não sei o que move aqueles que fazem mal ao próximo, cheios de ganância e ambição. A literatura disponível sobre estas figuras mostra apenas o que fizeram para chegarem ao topo do mundo, sem nunca explicar o porquê deles jamais se preocuparem com o próximo. Mas para ser sincero, não me interesso tanto assim por esses indivíduos.

Me interesso mais por aqueles que trilharam o caminho oposto. Gosto mais daqueles que lutaram a favor de seus (nossos) irmãos. E na biografia destes, posso ver sempre o amor que sentiam pelas pessoas, em especial aqueles mais carentes deste sentimento tão subestimado.

Sentimento aliás que pode ser traduzido como comportamento segundo o autor de o Monge e o Executivo (se é que essa ideia é dele). Tratar o outro como gostaria de ser tratado parece um jargão batido, mas assim como a teoria de Marx e Engels, jamais posto em prática em sua essência e totalidade.

Agora, pra variar, me pergunto: o que cria no ser humano esse bloqueio em relação ao amor? Instinto de sobrevivência? Doutrina baseada na moral sem ética da igreja? Pra variar, não sei. Aliás, é exatamente sobre isso que falava no início deste “post”. Quanto mais eu tento, mais eu fracasso. Quanto mais eu busco, mais eu perco.

O que me deixa feliz, por hora, é saber que não estou sozinho neste ciclo. Minha “amiga imaginária” me lembrou disto, e por isso lhe sou muito grato!

Preciso saber o que, como, onde e com quem fazer alguma coisa. PRECISO FAZER ALGUMA COISA! Pensar demais me faz doer a cabeça, e a falta de ação me atrofia os músculos – especialmente o coração.

Ah, o coração! Chegará o dia em que o cérebro será subordinado do coração, e então nosso mundo será um lugar muito melhor!

ps: post escrito ao som de Lenine, Paciência.

Robson Ribeiro

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