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O beat da beata (título emprestado)

Ela era, ainda, uma incógnita. Havia demonstrado interesse por diversas vezes, enquanto eu era comprometido. Quando fiquei solteiro, porém, não deu muita abertura às minhas investidas. Na verdade, não deu nenhuma.

Nós (o Emerson, o Gui e eu – democraticamente em ordem alfabética) tínhamos o hábito de dar apelidos às garotas, afinal, nós sempre falávamos de tantas garotas que era impraticável lembrar de todas elas “apenas pelo nome”. Elas precisavam de um rótulo pra serem identificadas de imediato.

    • …ela não ligou. Eu não sei mais o que fazer, acho que vou desistir de sair com ela. – desabafei com os rapazes.
    • Espera aí, ela quem? – perguntou o Gui.
    • A Ju, já falei. – respondi, meio indignado. Parecia que não prestavam atenção.
    • A, “a Ju”. Grande coisa. Como vamos saber qual de suas 419 paixões desse mês é a “Ju”? – defendeu-se o Gui.
    • Verdade – interveio o Emerson – você tem que dar um apelido pra ela.

Pensei. Qual era a característica mais acentuada que eu conhecia daquela moça?

    • Tá bom. Então “essa” vai ser a “Beata”.

Beata! Uma lâmpada acendeu-se sobre minha cabeça – aquela das ideias geniais. “Por que eu não pensei nisso antes?” – pensei.

    • Já sei como vou fazer pra sair com ela!

Contei-lhes o plano.

    • Nossa! Isso é perfeito! Você não presta, mas o plano é perfeito! – disseram os dois, quase em uníssono.

Dois dias depois, falei com a Beata pelo MSN:

    • …e por isso eu não pude ir na visita técnica que a escola promoveu. Pior que é muito importante que eu assista, pois haverá uma prova sobre isso. Você não gostaria de ir comigo? – perguntei.
    • Mas é claro!! Nem acredito! Eu nunca fui assistir! Nunca pensei que você me chamaria prum lugar desses! Faz assim, eu te ligo amanhã pra gente combinar melhor!
    • Mas vai ligar mesmo, ou vai me deixar no vácuo como da outra vez?

Ela ligou.

Marcamos o passeio pro dia seguinte.

Era domingo de manhã – alguns dirão que 10 horas da manhã é madrugada prum domingo. O dia estava simplesmente lindo! O céu bem azulzinho, limpinho. Temperatura muito agradável, algo em torno dos 25 graus. Os prédios enormes projetavam uma sombra por todo o Largo, e uma brisa geladinha me tocava o rosto. Era uma manhã perfeita pro romance. Eu estava encostado junto à saída do metrô esperando ela chegar.

    – Nossa – falei, surpreso (talvez até demais) – você está linda!

Ela vestia uma sandalhinha, calça jeans, uma blusinha branca com alguma coisa cinza (não sei o que era aquilo!) sobre os ombros. O cabelo curto repuxado num rabinho-de-cavalo com algumas “mini-piranhas” prendendo umas madeixas rebeldes e o rosto levemente maquiado – o mínimo pra dar um toque sensual, e o máximo pra não incomodar o…padre?! Sim. O padre.

Calma. Não a pedi em casamento – já passou o tempo em que as beatas (e as mulheres em geral) se guardavam pra casar de branco.

    • Obrigada – ela respondeu. Vamos entrar?
    • Claro! Já vai começar!

Entramos. Ela fez o sinal da cruz.

O Mosteiro de São Bento (São Paulo, SP) foi a minha salvação. Chamei a Beata pra assistir ao Canto Gregoriano das missas de domingo. Como estudante de regência, era mesmo necessário assistir. Como conquistador barato, foi a última cartada – desesperada, confesso – pra conseguir sair com a moça e não perder a moral.

Deu certo. Depois de longas duas horas em pé ouvindo cantos em latim e sermões em grego – pra mim os padres sempre falam grego – nós demos uma volta pelo centro da cidade e, bom, não preciso entrar em detalhes…

Robson Ribeiro

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A linha tênue entre o sonho e o pesadelo

Faltavam 20 minutos pra meia-noite, era sexta-feira e a rua estava atipicamente calma – o boteco não tocava forró, nem música ao vivo; nenhum carro tocava funk em volumes insanos; nenhum vizinho brigando. Era noite de lua cheia e fazia muito calor. Eu estava na cama, deitado, naquele estado semi-consciente que a gente fica quando tá muito cansado mas não consegue dormir:

“…É, dessa vez o Jack tá perdido. Quero ver como ele vai descobrir quem é o traidor antes de matarem sua filha… Amanhã o dia tá cheio, graças a Deus. Até que a gente tá conseguindo bastante alunos de violão – ufa! As bandas também têm aparecido pra ensaiar, acho que esse mês a escola paga suas próprias contas e ainda sobra um pouco…A Ná já tá dormindo. Tadinha, tem sido muito puxado esse trabalho novo dela…”

“…Que barulho foi esse?…Hum, acho que não foi nada, senão o Mané estaria latindo. Desde que invadiram a escola da primeira vez e nós passamos a dormir aqui nos fundos eu não passo uma noitezinha sequer sem essa apreensão. Mas Deus há de proteger a gente…”

De repente, sem nenhum aviso prévio, ouvi um barulho na porta do quarto, alguma coisa raspando-a e forçando-a:

“…Mas esse Mané é um cãozinho sem-vergonha, tá tentando entrar aqui no quarto de novo. Eu sei que o cocker é uma raça muito carente, e sei que nós o acostumamos a dormir com a gente. Mas essa edícula que chamamos de “quarto” já é pequena demais pra mim e pra Ná – não dá pra dividir com o Mané. Ademais, é importante que ele durma lá fora pra – por que ele tá latindo desse jeito? Não é um latido normal, como aquele que late pros gatos. Esse tá mais bravo, mais urgente. Acho que vou ver o que é…”

Levantei da cama e dei uma espiada na janela:

“Ah filho da puta!”

Sai correndo, o Mané atrás de mim, latindo muito. Entrei na casa principal do terreno – onde era nossa escola de música – pela porta dos fundos, que dava acesso à recepção (onde ficava também a porta pra rua). Peguei a primeira coisa que vi pela frente.

O Mané voltou, foi avisar a “mamãe” dele.

Com o cabo da vassoura em riste virei-me pra porta de acesso ao corredor, que por sua vez dava acesso às salas de aula. Ele já estava lá, e não pôde conter a cara de espanto ao me ver – talvez esperasse que a escola estivesse vazia como da outra vez que entrou e fez a festa (levou quase R$ 5000,00 entre equipamentos e instrumentos). Eu já tinha perdido o controle.

Quebrei o cabo da vassoura na cabeça dele e o agarrei pelo pescoço antes que pudesse reagir. Nessa posição, dei-lhe alguns socos no rosto enquanto o apertava com o outro braço, sufocando-o. Nessa hora a Ná apareceu na porta dos fundos, o Mané junto, latindo.

    • AI MEU DEUS! – ela gritou. Talvez o grito mais desesperado que eu já ouvi.

Ele aproveitou minha distração e se desvencilhou de mim. Correu em direção à porta dos fundos – onde estava a Ná – com esperança de fugir por ali. Corri no seu encalço. No quintal, ele percebeu que não tinha por onde sair e resolveu negociar:

    • Abre a porta que eu vou embora – o nariz dele sangrava.

Eu só queria vê-lo longe da minha família. Foi exatamente o que eu fiz. Ao ver-se livre, ele desdenhou: “falou trouxa!”.

Tranquei a escola.

Tentei me acalmar.

Tentei acalmar a Ná.

Tentei acalmar o Mané.

Liguei pra polícia, que demorou cerca de uma hora pra atender nosso chamado. Quando chegaram, expliquei o que aconteceu: “…então eu olhei pela janela do quarto e vi uma luz acesa na sala de aula, onde um vulto mexia nas coisas dentro do armário. Saí correndo e…”.

Não é preciso dizer que a polícia não fez nada.

Naquela noite não conseguimos dormir.

Um mês depois fechamos nossa escola – e assim acabou-se nosso sonho.

Robson Ribeiro

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Comédias (românticas) da vida privada

De:

“emerson rosa” <edilimarosa@nãovemaocaso.com>

Para:

“robson ribeiro” <robsonsky@yahoo.com.br>

Nego, o que aconteceu foi o seguinte: quando eu tinha uns oito anos de idade, era muito apaixonado por uma menina da escola – o nome dela era Tatiana. Nossa, como eu achava aquela garota bonita! Acho que fui apaixonado por ela até a quinta série, sei lá. E todo mundo da escola sabia que eu era apaixonado por ela kkkkkkkkkk.

E quem eu encontrei ontem? Exato. Eu estava ensaiando o coral no Ponto de Cultura quando uma mulher muito linda veio em minha direção (até olhei pra trás pra ver se tinha mais alguém, não era possível que uma mulher como aquela estivesse vindo falar comigo!).

Então ela disse: “oi professor, tudo bem?”. Respondi, meio sem graça e com o coração quase na boca: “tudo”. A moça se apresentou: “eu sou professora de desenho aqui no Ponto de Cultura. Sempre que você acaba o ensaio do coral eu te procuro, mas você já está dentro do carro indo embora, sempre numa correria danada! Nunca tenho a chance de perguntar, então resolvi interromper o ensaio…”

“Perguntar o quê?” perguntei eu, de forma um tanto afoita (pra que tanto rodeio? É claro que eu aceito me casar com você! – pensei). Ela disse: “você estudou na escola Conselheiro, com a professora Marinalva, nas segunda e terceira séries, não?”. Já sem muita pasciência pra’quele papo furado que sempre precede os finalmentes no primeiro encontro dos casais, respondi: “estudei sim. MAS QUAL É O SEU NOME?”

“Tatiana, você lembra de mim?”

Não – pensei. “Mas é claro!” – respondi. Homem não presta. Nego, ela mudou muito! Mas depois de algum tempo eu lembrei daqueles olhos lindos…Então falei, com um sorriso enorme no rosto (o mesmo que deve ter uma pessoa, incrédula, ao ganhar na mega-sena): “nossa, que legal!”. Então ela me deu um abraço super apertado – apertado demais pra que eu pudesse me controlar. Ou melhor, “controlá-lo”.

Ela perguntou: “você era super apaixonado por mim, lembra?”. Até então eu não lembrava de nada, mas não seria de se estranhar, eu sempre tive bom gosto pra mulher. E sou muito exigente, você sabe. Eu vou casar com uma mulher linda, mesmo que ela esteja de olho só no meu dinheiro! E se for preciso, eu vou investir uma grana nela, pra ficar com tudo em cima! Não vou ter miserê com isso não kkkkkkkkkk.

“Lembra daquela caixa de bombom que você ganhou da tua mãe e me deu no dia seguinte? E de quando você me protegia nas aulas de educação física, pra que eu não levasse boladas?” ela perguntou. “Não…” eu respondi. “Mas eu me lembro de tudo que você fazia por mim na escola! Guardo essas lembranças até hoje, com muito carinho…”. Nego, quando ela me disse essas coisas, um filme passou na minha cabeça, e eu comecei a lembrar daquela época, e do quanto eu gostava dessa menina!

Finalmente nós trocamos telefone (eu já estava suando frio, as mãos e a testa salpicadas de gotinhas) e combinamos um encontro.

Ela disse: “quando você puder, me liga! Vai ser ótimo te ver fora do Ponto de Cultura, com bastante tempo pra gente conversar…”

Respondi: “Mas é claro! Quando você pode?”

Ela: “bom, nesse final de semana eu estou livre…”

Eu: “ótimo!! O que você quer fazer?”

Ela: “bom, seria legal se você pudesse ir lá em casa…” – comecei a flutuar – “…pra conhecer meu marido e meus filhos…” – e tomei o tombo mais espetacular da minha vida! Dá pra acreditar? Kkkkkkkkkkk.

Robson Ribeiro

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Simples assim

Ela acordou pela manhã, feliz da vida – como sempre.

Ele acordou pela manhã, rebugentíssimo – como sempre.

Ela deu bom dia pras plantas, pros pássaros, pra porta, pras paredes, pro pai, pra mãe, pro irmão, pros cachorros, pra mesa, pra pia, pro espelho. Ela deu bom dia pra TUDO que seus olhos viam.

Ele não deu bom dia pra ninguém. Nem pra si mesmo.

Ela tomou banho, se arrumou, tomou café da manhã com a família, conversou bastante com todos eles. Deu uma espiadinha no quintal e falou com os cachorros. Passou pelo santuário, conversou com os antepassados, conversou com o Mestre, e agradeceu. Agradeceu por mais um dia, por estar viva! E assim, feliz, foi pro colégio.

Ele não tomou banho pois o tomara no dia anterior, como sempre. Lavou o rosto, se vestiu – tudo às pressas, pois estava atrasado como sempre – tomou uma xícara de café preto sem ao menos olhar na face de sua mãe, que se levantara apenas para lhe dar o café, e saiu correndo porta a fora. Sua mãe lhe disse alguma coisa, mas ele não ouviu.

Ela notou que o dia estava lindo: o céu azul, o sol radiante, lindas azaléias desafiando o frio do outono e pássaros animados numa conversa matinal.

Ele não notou nada disso.

Ela vestia uma calça jeans boca-de-sino azul clarinho, uma blusinha branca com a oração pela paz mundial, um cinto vermelho e um tênis branco/cinza. O cabelo preso na nuca em “rabo-de-cavalo”. Usava algumas pulseiras no braço esquerdo, brincos discretos e um anel de compromisso no dedo anelar direito.

Ele vestia uma camisa preta de uma famosa banda de heavy metal setentista, uma calça jeans surrada e um tênis preto. O cabelo desgrenhado, crescendo desordenadamente. Quatro brincos na orelha esquerda e dois na direita.

Ela caminhou uns 15 minutos de casa até o ponto de ônibus, onde esperou por mais 10 minutos pela condução, que veio lotada. Com um sorriso no rosto, deu bom dia para o motorista e para o cobrador, passou a catraca e se acomodou lá pelo meio do coletivo.

Ele caminhou uns 15 minutos de casa até o ponto de ônibus, onde não esperou mais do que um minuto pra pegar o primeiro ônibus que chegou, lotado. Com sua carranca habitual, passou – empurrando todos os outros passageiros – para o fundo do ônibus, onde se escorou junto à porta traseira.

Ela chegou na escola 15 minutos antes de tocar o sinal.

Ele chegou na escola no momento em que tocava o sinal.

Ela, calmamente, encontrou algumas colegas, deu bom dia à todas, uma por uma, e foi pra classe.

Ele, estressado, não falou com ninguém e correu pra classe.

Ela sabia em que classe seria a aula naquele dia.

Ele, não.

Ela vinha subindo a escadaria principal do prédio principal da escola, envolta numa conversa muito animada com suas colegas.

Ele vinha descendo a escadaria principal do prédio principal da escola, perdido em seus próprios pensamentos, tentando descobrir pra onde ir.

Ela olhou pra cima.

Ele olhou pra baixo.

Ela olhou dentro de seus olhos, bem fundo. Abriu seu sorriso lindo e sincero – como sempre – e lhe disse: bom dia!

Ele, atordoado, pego de surpresa, lhe respondeu: bom dia.

Ela seguiu seu caminho com as colegas. Passou por ele pelas escadas e levou consigo o coração do rapaz.

Ele sorriu pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez em muito tempo. Estava apaixonado. Simples assim.

Robson Ribeiro

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Campo de batalha

Eu estava sonhando muito gostoso! Sabe aquele sonho romântico, no qual o amor da sua vida (pelo menos o do momento) te nota, fala contigo, mostra interesse? Aquele sonho romântico em que rola uma sintonia entre vocês dois, os olhares brilham e se cruzam constantemente e os pensamentos parecem os mesmos? Aquele sonho romântico em que você a chama pra matar aula e passear no parque, e ela aceita, e lá se vão os dois pombinhos pro meio das árvores aproveitar a manhã que parece não acabar nunca, e ao mesmo tempo passar rápido demais? Aquele sonho romântico em que você acaricia o rosto dela como se fosse uma flor de pétalas delicadas (uma rosa), aproxima sua boca dos lábios dela o suficiente para que ela vença a última e tênue distância antes do beijo? Sabe aquele sonho romântico que sempre acaba na hora do beijo? Era um sonho destes que eu sonhava quando acordei repentinamente.

Não sei por que acordei. Abri os olhos, ainda meio abobalhado por conta do sonho, depois muito frustrado por conta do fim deste. Estava escuro e frio, o que indicava ser muito cedo ainda. Logo em seguida minha mãe levantou-se sobressaltada e sacudiu-se toda, parecia um cachorro saindo de um banho forçado.

Insatisfeita levantou-se, ascendeu a luz e “fez uma busca” em sua cama: mexeu e remexeu nos lençóis e cobertores, atrás de um inimigo oculto – pra mim inexistente. “Você tá cada vez mais doida” – falei. Resignada, mas não convencida, ela apagou a luz e voltou pra cama.

Foi quando eu ouvi. Não sei como descrever o barulhinho peculiar, parecia uma sacola plástica sendo amassada. Mais tarde minha mãe diria que era o som de um helicóptero.

Mamãe, aliás, deu-me um susto dos diabos! Mas não a culpo, ela mesma tomou um muito maior que o meu, por conta do barulhinho. Deu um grito gutural, nascido de suas entranhas mais profundas, e saltou (com uma habilidade incrível para sua idade) em minha direção. Ascendeu a luz, e pude notar sua cara de pânico (acentuada pelo cabelo emaranhado, o inchaço facial característico de quem acaba de acordar e os olhos cheios de meleca – parecia a Solineusa, pessoa que homenageei com uma poesia homônima neste blog).

    • O que foi? – perguntei levantando-me, com urgência na voz.
    • Tem alguma coisa andando em mim! – respondeu-me, com histeria na voz.
    • A, pára mãe, vai dormir! Tá ficando velha mesmo!
    • OLHA LÁ!!!!!
    • O que, aonde?
    • LÁ!! DO LADO DA MINHA CAMA! AAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!
    • Calma mãe! É só uma barata (voadora)!

Na verdade parecia um morcego – não, um pterodátilo – mas eu não podia dizer, precisava acalmá-la e, mais do que isso, criar coragem pra salvar o mundo. Preciso admitir: morro de medo de baratas, especialmente as voadoras! Na verdade, tenho pavor de qualquer bichinho que possa caminhar livremente sobre minha pessoa sem que eu possa vê-lo ou impedi-lo – especialmente os voadores.

Enquanto eu procurava armamento pesado para lidar com o “Monstro do Lago Ness”, minha mãe – que não é boba nem nada – saiu de casa, ou pelo menos tentou.

    • AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!!
    • O QUE FOI MÃE?
    • TIROLÊS, SEU #%&#%#&! – Tirolês é nosso cocker, que ansioso pra ajudar deu outro susto em minha mãe, que por sua vez deu outro susto em mim.
    • Pô mãe, deixa eu me concentrar!

Achei o que procurava – meu tênis 43. Aproximei-me com muita cautela do inimigo, que parecia desdenhar de minha presença. Tentei parar a tremedeira mas não consegui. Concentrei-me o máximo que pude, mirei cautelosamente e…PAAAAAAAAAF!!

    • Ela correu pra lá! Pô Robson, não acredito que você errou! E agora?
    • Calma mãe, eu acho ela de novo.
    • OLHA ALI! NA CÔMODA!
    • Faz silêncio!

Refiz todo o procedimento anterior, desta vez um pouco mais seguro. Pensei comigo: posso errar uma vez, mas não duas! PAAAAAAAAAAAAAF!!

Que nojeira! Nunca vi uma barata tão cremosa! Blergh! Da onde saiu tantas asas?

Matei o bicho, mas fiquei com a sensação de que venci apenas uma batalha, não a guerra. Como não tinha mais clima pra voltar a dormir – tampouco sonhar – aprontei-me e fui pra escola.

Robson Ribeiro

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Um programa em família

  • Faz muito tempo que aconteceu…
  • Tudo bem, tente se lembrar. Qualquer coisa!

OPA! Peraí. Deixa eu recomeçar, isso tá meio “Titanic” demais.

Faz muito tempo que aconteceu, mas eu vou tentar lembrar dos fatos para reproduzi-los fielmente – na medida do possível.

Eu tinha 16 anos, rockeiro e rebelde. Meu pai tinha 39 anos, rockeiro e rebelde.

Eu estava assistindo ao “Intercine”, um programa que exibe filmes antigos de madrugada. Não lembro qual filme era, exatamente, mas certamente tratava-se de algum “clássico oitentista” que eu adoro, tipo o Rambo ou o Exterminador do Futuro.

Era sexta-feira. Como um cão habituado com o dono, notei de longe: ele estava chegando. O portão do prédio bateu, ouvi passos pesados na escada – apoiados no corrimão, fazendo um estardalhaço dos diabos – e o sinal definitivo: a chave que não encontra o buraco da fechadura por nada no mundo!

Finalmente, meu pai abriu a porta. Olhou-me com uma expressão intrigada e abobalhada. Abriu um sorriso sincero e perguntou: “o que foi?”. Ele estava bêbado.

    • Fala Robsão! Dá um beijão aqui!

Não pude escapar de seu abraço pegajoso. Recebi o beijo mais molhado que garota nenhuma jamais me deu.

Ele sentou-se para tirar os tênis, quando uma lâmpada acendeu-se sobre sua cabeça – juro que pude ver a lâmpada! Acho que esta mesma lâmpada tem visitado caras como Einstein, Newton e o doutor Emmett Brown ha séculos!

Rapidamente (tanto quanto possível, ele estava bêbado, lembra?) meu pai amarrou novamente os cadarços dos tênis e, de maneira triunfal, contou-me sua idéia:

    • Vou te levar num barzinho de Rock’n Roll!!

Não preciso dizer que aderi com prontidão. Adoro uma farra descabida!!

Sentado no passageiro de um Gol “Batedeira” (o modelo mais antigo, cujo motor bate como uma batedeira) fui com meu pai rumo ao desconhecido.

O bar em questão é o extinto “Novo Aeon, o Pontão do Rock”, um barzinho-boteco de rock, que ficava na Av. Robert Kennedy (São Paulo – SP).

Meu entusiasmo caiu de quatro (olha o respeito!) quando chegamos. O bar estava fechado. Tudo bem – pensei – eu nem queria mesmo…

Mas meu pai não se deu por vencido. Fez a primeira conversão proibida que encontrou, com a sutileza de um elefante numa loja de cristais (ele estava bêbado, lembra?) e, como um GPS, atualizou a rota: “vamos ao GLS!”. Gays, Lésbicas e Simpatizantes – balada homossexual.

O GLS era um ambiente “super familiar”. Uma baladinha com uma pista de dança e um bar nos fundos do salão.

Meu pai foi logo entrando sem pudores. Para minha surpresa, ele já conhecia o segurança da casa! Dentro do recinto, fiquei SUPER encabulado. Meu pai, ao contrário, não titubeou (ele estava bêbado, lembra?). Foi direto para a pista e dançou ao sons de “I Will Survive” e “Macho Man”.

QUE DESESPERO! Os “rapazes” começaram a juntar-se ao redor do meu pai, que bêbado (lembra?) estava vulnerável – uma presa fácil! Não tinha o que fazer. Só pude fechar os olhos e esperar pelo pior: encarnei o personagem, me embrenhei na roda de “machos” e agarrei meu pai. Dançamos coladinhos, lindo! As garotas mais românticas teriam sem lembrado de Patrick Swayze e Jennifer Grey em “Dirty Dancing – Ritmo Quente”. Acho que aqueles “meninões” lembraram…

Missão Resgate concluída, tratei de tirá-lo dali. Na saída, a cereja do bolo, para fechar a noite com chave de ouro: uma mão me agarrou o ombro!

Minhas pernas tremeram, o coração acelerou, a respiração ficou ofegante. NÃO, EU NÃO ME APAIXONEI POR NINGUÉM! Estes também são sinais de medo e alerta, causados pela adrenalina liberada na corrente sanguínea.

Uma voz pastosa e insolente – e para meu espanto, conhecida – falou-me ao pé do ouvido:

    • Nuoooooooooooossa! Não sabia que você gostava desse tipo de “rolê”…!

Virei pra trás, não resisti. ESPANTO! Tratava-se de ninguém menos que um dos meus professores do colegial! Rapidamente expliquei-me:

    • Hehe – sorriso amarelo – não é nada disso que você está pensando. Estou aqui com meu pai.

Será que eu esperava que ele acreditasse?

    • Aham, eu sei. Todos os meus amigos aqui dentro estão passeando com o papai também!

Passei o braço em volta do ombro do meu namorado, digo, pai, e saí de lá.

Meu pai nega. Diz que não se recorda de nada – ele estava bêbado, lembra?

Robson Ribeiro



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O filho (prodígio) do Brasil

Uma passagem de trem R$2,55. Meia-entrada no cinema, R$ 6,50. Combo pipoca e refrigerante, R$ 14,00. Assistir uma produção nacional sobre nosso presidente não tem preço! Com esse pensamento saio de casa rumo ao cinema mais próximo (não tão próximo assim).

A caminho do shopping, observo a periferia da zona sul de São Paulo. Casas inacabadas cor de vermelho-barro se amontoam à margem do rio pinheiros (cada vez que abrem as portas do trem o cheiro fétido do rio irrompe narinas abaixo queimando tudo, como uma dose de cachaça faz no esôfago), este acima do nível normal devido às fortes chuvas que castigam e alagam a cidade, deixando inúmeras pessoas sem nada, e outras tantas sem vida (literalmente). Esse quadro me faz pensar: por que o brasileiro não briga mais pelos seus direitos? Será que este povo só funciona à base de tapa? Será que tem algum General, Marechal ou qualquer “al” de patente mais alta disponível para dar-nos um golpe-de-estado bem dado e nos acordar?

No cinema descubro como alguns metros podem mudar radicalmente o cenário: o hall, lotado, e a sala, vazia. Com exceção de alguns velhinhos nordestinos orgulhosos de seu conterrâneo vitorioso, de um casal assanhado (que sempre sabe qual sessão estará vazia) e deste que vos escreve, a sala estava entregue às moscas (que babavam em seus assentos!). Ótimo, penso, vou assistir ao filme confortavelmente e sem…Nem posso terminar o pensamento. Entra na sala um grupinho (umas 4 pessoas) animadíssimo, disposto a falar durante todo o filme. E assim o fizeram.

E por falar em filme, vamos a ele. De cara, a mensagem “este filme foi produzido sem qualquer lei de incentivo do governo”. Lógico. Em ano eleitoral é imprescindível que eles deixem isso bem claro, principalmente por dois motivos: o filme é sobre o atual presidente, e teoricamente favorece a campanha de seu candidato na corrida (maluca) presidencial. Disse teoricamente porque não há propaganda eleitoral explícita no filme. Ele se limita a contar metade da vida de um homem (um grande homem). Mas há quem diga que todos aqueles patrocinadores que estampam suas logomarcas e logotipos na telona têm interesses oblíquos. Será?

Certo, verdade seja dita: o cinema não via um mocinho tão politicamente correto desde “Clark Kent”. De acordo com um periódico inglês, “não existe ninguém de coração tão bom”. De fato, sou obrigado a concordar – eles deveriam retratar também os medos, erros e fracassos do homem, afinal ele é só um homem que também está sujeito às intempéries da vida. Isso não derrubaria o mito, o valorizaria ainda mais.

O filme, porém, é inspirador. Nos faz querer dar um sentido para nossas vidas, querer sair de nossos apartamentos onde estamos “sentados no trono com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, como diria “a mosca da sopa”. As cenas dos discursos são de arrepiar!

Há também uma visão romântica daquele que nos governa hoje. Mas, “romantizado” ou não, até o mais alienado cidadão brasileiro sabe quem é Lula, aquele nordestino metalúrgico sem-estudo e sem-dedo, mas com sabedoria e persistência de sobra (sua mãe dizia “teima filho, teima que você chegá lá”), que saiu do sertão e chegou em Brasília pela porta da frente, em pé no famoso “Rolls Royce” preto conversível. O que este alienado talvez não saiba é que, com erros e acertos, o cara tá lá porque lutou, e muito. Foi preso pelo Dops e saiu aclamado pelo povo. E vivo, o mais importante.

Combo pipoca e refrigerante, R$ 14,00. Meia-entrada no cinema, R$ 6,50. Uma passagem de trem…Ops! Cadê o dinheiro que estava aqui? Sem dinheiro pra passagem (perdi em algum momento do passeio), volto andando pra casa. Duas horas de caminhada. Voltar andando pra casa pensando na vida depois de um bom filme…isso realmente não tem preço!

Robson Ribeiro

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