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Em memória

A melhor lembrança que eu tenho de nós dois? Bom, a melhor lembrança que eu tenho de nós dois é, sem dúvida, daquele dia que fomos no Finsbury Park, em Londres. Mesmo hoje eu posso lembrar de cada detalhe.

Eu acordei 6:14 da manhã – bem antes do despertador, programado pras 7 em ponto. Nós tínhamos combinado sair as 8, então 7 era um horário razoável pra acordar. Mas eu acordei antes e, ansioso demais pra conseguir dormir de novo, eu levantei. Tomei meu banho e fui pra cozinha aprontar o café da manhã.

Acordei-te pouco antes das 8. Você não despertou de cara. Meio zonza – com sono – demorou um pouco pra entender o que eu fazia ali, em pé ao lado de sua cama com aquela bandeija nas mãos. Quando se deu conta, ajeitou o cabelo da melhor maneira que pôde, tateou o criado mudo ao lado da cama à procura dos óculos e, quando finalmente os colocou no rosto, sentou-se na cama e disse: “Você é maluco!”. Eu interpretei como um “obrigada”.

Esperei você se ajeitar na sala, lendo o horóscopo. A sinastria amorosa de escorpião e leão não é das mais animadoras quanto ao temperamento do casal, mas uma coisa me deixou contente. Dizia a frase: “…assim como escorpião, leão adora uma amor romântico.”. Sobre a previsão amorosa do dia, coisas muito ambíguas – como sempre – do tipo: “…se você está só, um novo amor pode aparecer. Se está acompanhado, um novo fogo ascender-se-á em seu relacionamento. Mesmo assim gostei da parte “um novo amor pode aparecer”.

Ouvi-te descendo as escadas, então fui te esperar ao pé. E a princesa desceu da torre mais alta bela como só ela poderia. Com seu cabelo preso num rabo-de-cavalo e sua franja penteada um pouco de lado, ela parecia flutuar em seu vestido branco de alcinhas. Eu fiquei ali, imóvel, hipnotizado com sua beleza, e o anjo – ao tocar o chão – perguntou: “vamos?”. “Sim”, respondi. Saímos.

O dia estava lindo. Era primavera na Inglaterra, e a temperatura girava – agradável – em torno dos 22 graus. Um dia quente, fora do comum mesmo naquela época do ano. O céu estava limpo, azul, e o sol radiante – tanto quanto eu, com tua presença. As árvores estavam todas verdinhas, assim como a grama, onde pequenas margaridas davam um colorido especial. Pessoas corriam pra lá e pra cá com seus IPODs, fazendo cooper, outras de bicicleta. Ao longe eu podia ouvir uma partida animada de futebol.

Nós nos sentamos debaixo de uma árvore – o que faríamos por todo o tempo que permanecemos na “Terra da Rainha”. E conversamos. Muito. Falamos sobre nossos irmãos, nossa família. Falamos sobre o mundo. Eu falei sobre mim, e você sobre você. E falamos sobre nós.

Nós estávamos numa época um tanto conturbada. Nem você, nem eu, queríamos algo sério (que ironia!). Eu estava me procurando, e você a si mesma. Mais tarde eu viria a entender: nós nos encontramos um no outro, naquele dia.

O sol já deitava no horizonte , dizendo-me: “ande logo, rapaz, que já são 9 da noite!”. É, os dias são mais longos mesmo, na primavera inglesa. Você pareceu ouvir o alerta, pois ficamos mudos ao mesmo tempo. Eu evitei teus olhos. Você evitou os meus. O silêncio perdurou por uma eternidade. Mesmo os pássaros calaram. Então eu cheguei mais perto, encurtei a distância. Você venceu a linha tênue que nos separava. Eu fechei os olhos. Busquei teu rosto com minha mão – eu sabia exatamente onde ele estava. Toquei-lhe a face de forma tão suave que pensei estar sonhando. Minha mão não precisou conduzir-te. Senti tua respiração próxima da minha.

E nos beijamos.

Hoje faz, exatamente, 47 anos que nós demos aquele primeiro beijo. Minhas pernas vacilam, logo menos vão me trair de vez. Mas eu simplesmente não podia deixar de vir. Ano após ano, mesmo depois que você se foi, eu NUNCA deixei de sentar ao teu lado pra recordarmos aquele dia, e renovarmos nossos votos. Não seria hoje que eu deixaria de fazê-lo.

Eu sei que você não vai gostar de ouvir isso – de novo – mas é verdade. Eu não vejo a hora de te reecontrar. Eu sinto a sua falta.

Robson Ribeiro

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Apito amigo

Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

“Bosta. Não tenho certeza se foi pênalti. Agora já era. Pior que tenho que dar o cartão vermelho, esse aí já tem amarelo. Se marquei esse pênalti, o cartão é obrigação – não posso mostrar a dúvida, vou perder a moral. Fodi o time duas vezes. Pra que ficar com essa merda de apito na boca, qualquer instinto o sopro sai e fode tudo. Merda! Vão dizer por aí que eu ando favorecendo o time da casa, de novo!”

“Porra, eu não acredito! Esse filho da puta não viu que o viadinho se jogou?! Tá certo, eu caí no carrinho, mas tirei a perna em cima da hora! Caralho, ele ainda me expulsou! E agora? Jogar uma final fora de casa já é difícil pra cacete, com um a menos então, impossível! Puta que o pariu! E logo eu vou ficar fora dum jogo desses? É dar adeus à minha chance de ir pra Copa também! Filho da puta!”

“Hahahahahaha!! Ele caiu!! Ele deu o pênalti!! Não acredito! O povo fala que eu sou um jogador “cai-cai” mas quem sempre “cai” é o juiz!! Hahahaha!! Maravilha! Um pênalti agora é tudo que a gente precisava! Com o time dos caras pressionando a gente daquele jeito, logo íamos tomar um gol. 1 a 0 pra eles matava a gente – os caras iam armar uma retranca do cacete, e pegar a gente no contra-ataque pra matar o jogo! Mas agora muda tudo! Graças ao “juju” a gente vai abrir o placar, e de quebra vamos jogar com um a mais!! Perfeito!”

“Ótimo! Um pênalti pra gente. Não podemos desperdiçar. O 10 anda treinando muito, é o batedor oficial, mas não tá bem no jogo hoje. Não posso deixar ele bater. Se ele perder, nossa chance de abrir o placar e fechar o jogo vai pro saco. Vou mandar o 7 bater, ele é rodado, maduro, experiente. Copa do Brasil não é nada pra quem já disputou a “Champions League” 4 vezes na carreira…”

“Cazzo! Juiz do caralho! Apitando pro time da casa de novo! Achei muito estranho ele não aceitar a minha oferta, no mínimo o presidente de lá ofereceu mais. Filho da puta! E o viado ainda deu sorte, porque esse pênalti não foi pênalti, mas dá pra discutir, interpretar. Merda. Nossa classificação pra Libertadores vai ser adiada se perdermos essa final – e nosso patrocínio também. Eu sabia que deveria ter oferecido mais, a oposição vai se crescer em cima disso. Cáspita!”

“O treinador me mandou bater. É uma merda. A gente vai pra fora, roda, roda, roda, mas essa porra de friozinho nunca sai da barriga na hora de cobrar um pênalti – principalmente um pênalti como esse, final de campeonato, a torcida na fila há anos, numa seca dos diabos pra ganhar algum título, zoar um pouco, depois de tanto tempo sendo zoada! Mas tudo bem, é só bater consciente. Sem paradinha, sem firula. Só um canudo no meio. Goleiro nenhum pega um canudo no meio, eles sempre pulam!”

“É o 7 quem vai bater. Graças a Deus. O 7 nunca erra um pênalti! E o cara é ídolo, merece fazer esse gol na final! Depois de tanta coisa que fez pelo clube, acho legal o treinador mandar ele bater, pra se aposentar com moral! Maravilha, a gente vai ser campeão depois de tanto tempo!! Aquele boteco vai ficar pequeno, a galera não vai me aguentar! Hahahaha! Valeu a pena pegar aquela fila dos diabos, pagar aquele preço salgado sem-noção pra ver meu time campeão!!”

“Pênalti? O juiz deu pênalti? Ai meu Deus! Que filho da puta!! Que belo filho duma puta! Caralho! Tanta fila pra nada, vamos morrer na praia de novo! Tudo por causa de um juiz ladrão! Ladrão e filho da puta!! Aquele boteco vai ficar um saco, com aquele zé ruela enchendo o saco por causa de um titulozinho sem-vergonha como esse! Que merda!”

“Êita juizinho filho duma puta viu?! Onde que ele viu pênalti, meu deus, ONDE? Agora ele me fode de vez. Claro, porque sempre sobra pro goleiro. O time põe tudo nas tuas costas, o treinador, o presidente e a torcida! Tudo depende de você, só você pode pegar a porra do pênalti. E não faz mais do que obrigação, se conseguir! Juiz do caralho! Mas tudo bem. Preciso me concentrar, quem vai bater é o 7. Vou ficar parado, não quero tomar gol de paradinha na final do campeonato. Vou ficar parado e pular quando sair o chute. E seja o que Deus quiser!”

“Eu não acredito! Ele pegou! Ele pegou a porra da bola, não deu nem rebote! Preciso tirar um atacante e colocar um zagueiro pra recompor a defesa, porque isso muda tudo…”

Robson Ribeiro

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Setembro

Cacete, como tá frio aqui, né? Muito frio. Tá nevando lá fora ainda? É, ainda tá nevando. E pensar que demos sorte de conseguir esta casa com telhado. Que situação de merda – dizer que tivemos sorte só por isso. Será que era melhor ter nos deixado capturar? Tá certo, vou parar com isso. Que frio! Como eu gostaria de acender uma fogueira.

Acho que peguei no sono de novo. É dia ou noite lá fora? Noite. Mas isso não importa mais, já perdi as contas – não sei se estamos aqui há dias ou semanas. Só me lembro que a comida acabou há três dias. Hahaha, “comida”. Eu sei que é uma tragédia, mas quem nunca riu da própria tragédia? É, concordo – geralmente rimos da tragédia alheia. Tá nevando ainda? Preciso esticar as pernas…É claro que eu não vou lá fora! Tá, tá! Eu sei que eles ainda estão procurando judeus, mas você acha que eles vão zanzar por aí com uma nevasca dessas? Pronto. Que delícia! Achei que meu corpo nunca mais sairia daquela forma de concha! Tá com fome? Eu vi um rato passando ali atrás – vou fazer uma armadilha. A isca? Boa pergunta.

Não tô conseguindo dormir – tá muito frio. E essa neve. Eu gostava da neve quando era criança. A gente montava bonecos, fazia anjinhos, brincava de atirar bolas de neve uns nos outros. Papai ficava uma arara conosco, mas fazer o que? Tínhamos de viver nossa infância. Ainda bem que o fizemos, vou sentir falta deles todos: papai, mamãe e meus dois maninhos. Será que morreram na bala ou no gás? Ah, não se preocupe – não tenho mais lágrimas pra chorar. Tá com frio? Eu daria tudo por uma coberta, uma lareira e uma bebida quente! Tá bom, vou parar de falar. Eu hein.

Tá acordado? Ouvi alguma coisa, acho que foi a armadilha. GRAÇAS À DEUS!! Não acredito! Estamos salvos! Cadê aquela pedra? Como assim, não sabe? Como vou matá-lo? Tem razão, nojo é um luxo que não posso me dar nessa situação. E depois, uma mordida dura menos de dois segundos – só espero que ele não me arranhe o rosto. Nunca pensei que esse bicho fosse tão saboroso…

Começou de novo. Por que será que eles insistem em bombardear este pedaço? Não tá destruído o suficiente? Sim, pode ser. Melhor tacar logo umas bombas pra preparar a tomada da cidade e, assim, poupar algumas vidas – melhor, poupar alguns peões. São os peões que vencem a guerra. Se pelo menos tivessem consciência disso… Que tal dormirmos um pouco?

Eu também tô com fome. Mas isso não é o mais perigoso – o ser humano pode aguentar um tempo sem comer, mas a falta d’água é pior. Pelo menos a gente tem essa neve toda pra “beber”. Você sabia que os russos inventaram uma forma “limpa” de matar? Eles sufocam o sujeito com neve, que derrete depois e acaba com qualquer vestígio da causa mortis. Muito inteligentes, os russos. Será que eles vão resistir?

Tá sentindo? Brisa maldita! Por onde será que tá entrando? Hahaha, tem razão! Essa casa mais parece um queijo suíço! Pelo menos ainda tem telhado. Já pensou essa neve toda aqui dentro? Que frio! AI QUE FRIIIIIIIIIO!

Ei, acorda! Fica de olho, vou dar uma espiada. Não, só pela janela, mas fique atento! Tudo deserto. Marca aí na parede. Segundo dia sem avistá-los. Terceiro. Quarto.

Uma semana sem que nenhum rato dê o ar de sua graça – nem a comida nem os nazistas. O que será que houve? Vou dar uma volta. Ah, relaxa! Nós já estamos mortos mesmo! Todo mundo morre no dia em que nasce, a diferença é o tempo que levam pra notar… Tudo bem, se você faz questão. Vamos!

    • Ei você! PARADO! Ponha suas mãos na cabeça e deite-se no chão. AGORA!
    • Ah meu Deus! Muito obrigado! Tenha calma, oficial, eu não sou um nazista! E nem o senhor, pelo que vejo. Deus abençoe a América!
    • Quem é você, e o que faz aqui?
    • Sou um sobrevivente.
    • Há mais alguém?
    • Não, só eu e este rapaz aqui.
    • Que rapaz?

    Robson Ribeiro

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Um mundo especial

  • Diego, pode me ouvir?
  • Sim mamãe! O que houve?
  • Nada meu filho, apenas preciso falar um pouco com você.
  • Estou ouvindo!
  • Sabe filho, está na hora d’eu te explicar algumas coisas sobre o mundo.
  • Sobre o mundo mamãe?
  • Sim. O mundo é este lugar onde vivemos, feito de lugares e pessoas. O mundo, filho, pode ser muito especial.
  • O que é especial mamãe?
  • Especial é aquilo que nos faz felizes. Tudo de que gostamos é especial para nós, filho.
  • Então você é especial pra mim mamãe!
  • Você também é muito especial pra mim, meu filho.
  • E o mundo mãe? Como faço pro mundo ser especial pra mim?
  • Ah, filho. Primeiro você tem de ser especial para o mundo…
  • Eu?! Eu devo deixar o mundo feliz para que o mundo me deixe feliz?
  • É mais ou menos isso filho.
  • Mas como mamãe?
  • Primeiro, você tem de acreditar, confiar e amar a mim e ao seu pai. Você deve fazer o que dissermos, mas não por medo das consequências – por respeito. Você deve amar seus pais, e respeitá-los. Sempre.
  • Mas eu devo fazer o que vocês quiserem pra sempre, mãe?
  • Não filho. Vai chegar um tempo em que você sentirá que pode caminhar com as próprias pernas. Nesta hora – e para sempre – você deverá ouvir sua mente e seu coração em harmonia. Se houver dissonância em algum aspecto, algo está errado e você deve corrigir.
  • Puxa mãe, isso parece tão difícil!
  • A vida não é fácil filho. Muitas vezes você sentirá vontade de desistir. Muitas pessoas dirão para você desistir – dirão que nunca irá realizar seu sonho. Mas você não deve ouvir estas pessoas, filho. Não que elas queiram o seu mal, apenas não puderam realizar seus próprios sonhos. Triste vida leva quem não pôde realizar seu sonho…
  • O que é um sonho mamãe?
  • Sonho, filho, é a forma como se manifesta a nossa missão no mundo. Todos viemos ao mundo com uma missão a realizar. É realizando nosso sonho que deixamos o mundo feliz. Realizando nosso sonho passamos a ser especial para o mundo, e o mundo passa a ser especial para nós.
  • Êita mãe! O sonho parece algo tão importante! E se eu nunca descobrir qual é o meu sonho?
  • Tenha calma, filho. Calma e paciência. Nosso sonho sempre se manifesta, diversas vezes, em nossa vida. O sonho caminha lado-a-lado com o dom. Quando descobrir o sonho descobrirá também o dom, e vice-versa. Quando descobre-se o próprio dom, encontra-se o sonho.
  • Mãe! Que dom você acha que eu tenho?!
  • Ah, Diego. Isso, não posso responder – você nem saiu da minha barriga ainda! Tenha paciência filho. Seu dom – e seu sonho – está aí em algum lugar, esperando a hora certa pra se mostrar!
  • Mal posso esperar, mamãe!
  • Tenha paciência filho, e pense em tudo que te disse. Procure viver da forma como falei, pois do contrário, seus olhos jamais verão tua imagem verdadeira, onde mora o seu dom e teu sonho espera para se realizar. E para tornar seu mundo especial.
  • Prometo que serei paciente mamãe! Sempre amarei e respeitarei você e o papai acima de tudo e, quando chegar a hora, vou realizar meu sonho e cumprir minha missão!

Robson Ribeiro

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Carpe Diem

O que será que ela vai dizer? Tenho certeza de que vai adorar a boa notícia! Nós esperamos tanto por isso! Me lembro quando tudo começou. Éramos dois adolescentes que se conheciam desde a infância. Talvez essa proximidade tenha despertado o amor entre a gente, ou talvez tenha sido tudo arquitetado antes mesmo de nascermos…

Deve ser isso. Destino! Só o destino explica nosso amor! Tantas idas e vindas durante a vida, mas sempre acabamos juntos. Meu primeiro beijo, minha primeira vez – a Aline esteve sempre lá. Carinhosa de um jeito que só ela consegue e com um fogo que só ela tem! Como eu amo essa mulher!

Caramba! Como esse trânsito tá carregado hoje! Parece de propósito! Parece que adivinhou que eu estou com pressa, super ansioso pra contar logo a novidade pra Aline! Ah, Aline. Até que enfim as coisas vão fluir em nossas vidas! E pensar que ainda ontem eu não tinha nenhuma idéia do que fazer… como um dia – melhor, algumas horas (!) podem fazer tanta diferença?!

Ela sempre dizia: “Wesley, tenha fé! Tenha fé de verdade! Fale com Deus de peito aberto, peça orientação, peça ajuda! Ele nunca falha com a gente!”. Confesso que não acreditava nisso, e talvez por não acreditar, as coisas não saíam do lugar. Mas aquele dia, naquele dia eu falei com Deus. Como não falar com Ele quando estamos aos pés do Cristo Redentor, e este no topo do Corcovado de braços abertos pr’aquele mundaréu de água cristalina? Falei com Deus e pedi um sinal, que chegou uma semana depois: mengão hexacampeão! Só mesmo um milagre pro mengão levar aquele caneco!

Nossa, nem acredito! Até que enfim consegui sair daquele ônibus! Que ônibus LOTADO! Como podem sujeitar seres humanos a essa situação? É desumano o tratamento que recebemos nesse país… mas isso vai mudar pra mim! Agora eu tenho certeza disso! Deus respondeu minhas preces, atendeu meus pedidos! O que será que a Aline vai dizer?

Preciso andar logo, o Santa Marta não é um lugar muito legal quando escurece. Que barato, um gringo vem aqui, grava um video-clipe e todo mundo acha que a “comunidade” é um lugar bom de se viver… É claro que há muitas pessoas de bem – a maioria. Mas o que pode a maioria contra uma minoria bem armada, que tem apoio da polícia e da política? Nada. Quero ver o que vai ser dessa Olimpíada…

Que barato! Lembro quando Aline e eu andávamos, corríamos, pra lá e pra cá, com aquele “havaiano” gasto no pé, cuja alça arrebentada era presa com um arame. A gente não fazia noção do que é o mundo – mas éramos tão felizes! Mais até do que somos hoje. As vezes eu acho que a ignorância é uma benção. Quem nunca fraquejou que atire a primeira pedra! Eu, porém, não penso mais dessa forma! Hoje minha vida mudou! Posso ver os olhos da Aline brilhando quando eu contar a novidade!

Droga, escureceu. Não consegui chegar a tempo! Aquele trânsito infernal… Mas tudo bem! É só não olhar pros lados! Abaixar a cabeça e subir rapidinho! Talvez eu passe despercebido. Como eu detesto isso! O Júlio costumava ser como um irmão pra mim, e agora eu tenho que me esconder dele, me esgueirar pelos becos do morro pra não ser visto. Eu sei que no fundo ele só quer me ajudar – afinal, ninguém pode ser pai sem uma fonte de renda. Mas o que ele me oferece não é exatamente a fonte de renda que eu espero. Quero criar meu filho!

Meu filho! Ainda não me acostumei com isso! Vou ser pai. PAI! Será que eu estou pronto pra tanta responsabilidade? Bom, hoje eu dei um grande passo! E a Aline? Ela sim tem jeito pra ser mãe! Como ela está linda com aquele barrigão de 8 meses! Tomara que ela esteja no barraco da mãe dela, preciso contar a boa nova!!

Não acredito. Começou de novo. Será que o Júlio cai esta noite? Eles têm trocado tiros a semana toda. Melhor eu andar logo. Ai! Que fisgada no peito! Nossa, tá queimando! Isso é sangue? MEU DEUS, ISSO É SANGUE?! Cadê a força das minhas pernas? Cadê minha voz? Socorro! Preciso de ajuda! Está tudo ficando preto…

Que luz é essa?

Robson Ribeiro

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A Praia II – A missão!

– …e você lembra quando a gente foi pra Trindade?
– Mas é claro! Como poderia esquecer? Esse seu peruzinho já colocou a gente em cada fria…
– Ah vai. A culpa não foi dele. Foi daquela garota linda com mais ou menos 1,67 de altura, talvez uns 55 quilos, negra, cabelos e olhos castanhos, com “tudo em cima”. Quase uma “globeleza”…
– Sei. Difícil foi explicar isso pro namorado dela né? Aquele armário gigantesco!
– Nem fala! Num instante eu tava recebendo um beijo e no outro um soco – a boca não entendeu nada!
– Mas eu sim. O que você tem na cabeça? Na debaixo, pra ser exato, pois na de cima eu sei que não tem nada! Armar a barraca embaixo da garota que tava te salvando a vida!
– E você escolhe essas coisas, por acaso?
– Escolher não, mas controlo!
– Você é um monge, isso não conta…
– Monge? Só se for chinês, ou você esqueceu do “Kung-fu” que eu dei no “Tropeço” pra ele te largar?
– “Kung-fu”? Hahaha! Você se pendurou no pescoço dele e lhe deu uma mordida no ombro, parecia uma moça brigando!
– Moça é? Então agradeça a mocinha aqui por você ainda ter todos os dentes na boca.
– Hahaha, você quem quase perdeu os dentes quando fez aquela aterrissagem forçada de cara na areia!
– Verdade! O cara parecia o Hulk, como ele conseguiu me jogar tão longe?
– Não sei, só sei que ele veio pra cima de mim cuspindo fogo, parecendo a mula-se-cabeça, e nada do meu piu-piu se recolher! Acho que isso o deixava cada vez mais brabo!
– Gente, que visão horrível: você, que de tão branco parecia transparente, correndo com a espada em riste e o “gigante Grope” correndo atrás de você, com os PUNHOS em riste! E tudo isso naquele paraíso tropical!
– Caramba, eu nunca tive tanto medo! Parecia que eu estava num daqueles pesadelos em que a gente grita, grita, grita, mas não sai som nenhum…
– Ah, mas saía som sim! A praia toda parou pra assistir, todos curvados de tanto dar risada!
– É, e nenhuma alma pra me acudir!
– Opa, deixa de ser ingrato! Te salvei, e fiz um senhor sacrifício, diga-se de passagem!
– Não posso negar, mas fazia questão de não lembrar disso…
– Ugh, eu também! Que coisa degradante! Não que eu tenha algo contra a quem faz, mas eu espero nunca mais fazer aquilo! Coitado do “Pitbull”, ficou com a cara no chão!
– Ficou mesmo! O que a gente não conseguiu com porrada você conseguiu com…
– Nem mais uma palavra!
– Puxa, mas aquilo foi tiro-e-queda! Mais queda do que tiro, se é que me entende!
– Vocês estão falando de Trindade de Novo?
– Oi Carol!
– Como vai Anderson? E você amor?
– Melhor agora meu bem! Estava lembrando de quando nos conhecemos…
– Sei! Vocês estavam lembrando é daquele beijo cinematográfico! Beijo de novela! Hahaha!
– Pode rir, mas devia me agradecer! Só mesmo dando uma de gay praquele brutamontes deixar o Joca com vida…

Robson Ribeiro

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A Praia

A gente resolveu assim, por impulso:

    • Vamos?
    • Vamos! Você já foi alguma vez?
    • Sim, uma vez só.
    • E como é?
    • Ah, não dá pra explicar, só indo mesmo…
    • Certo!

Agora eu entendo o que ele quis dizer. Não dá pra explicar.

Assim que chegamos à praia, tivemos de tirar a sunga:

    • Ai meu Deus, que vergonha! Vou esperar ele tirar primeiro – pensei.

Ele tirou naturalmente, com a calma de quem já o fizera algumas vezes.

    • Nossa, é desse tamanho mesmo? Não parece muito diferente do meu. Se o do negro não é grande, será o do japonês pequeno como dizem?

Tirei a sunga. Nunca pensei que sentiria tanto frio na região púbica. E que vergonha. Parece que todos os adeptos do nudismo daquela praia brotaram da areia só para apreciar minha “primeira vez”.

    • Vai ficar aí parado? – ele perguntou. Vamos dar uma volta!

Sem falar nada, acompanhei-o. É no mínimo peculiar a sensação de andar com as “coisas” balouçando ao sabor do vento. É quase como andar pelado em casa, com a diferença que em casa não sopra nenhuma brisa, e ninguém está te olhando. Mas verdade seja dita: numa praia de nudismo ninguém fica “te olhando”.

O nudismo é como uma filosofia de vida. Os adeptos desta prática buscam a libertação de valores morais forjados em nossa mente séculos a fio pela igreja. E para eles, nada melhor do que mostrar-se completamente nu, e assim destruir toda e qualquer barreira dogmática presente nas relações humanas. A prática é associada ao naturismo, que abrange ainda o contato com a natureza e práticas alimentares baseadas no consumo de vegetais. Os princípios naturistas são assim definidos pela Federação Internacional de Naturismo (INF): “Um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática do nudismo em grupo, que tem por intenção favorecer o auto-respeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o ambiente.”

Isso é tudo o que li a respeito do nudismo, e o que me levou a experimentá-lo. Mas na prática, não ajudou muito pensar nisso quando precisei. Explico: estávamos andando pela praia, com os pés na água, quando a vi. Uma garota linda com mais ou menos 1,67 de altura, talvez uns 55 quilos, negra, cabelos e olhos castanhos, com “tudo em cima”. Quase uma “globeleza”!

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro o respeito que tenho pelos praticantes do nudismo. Jamais quis ofendê-los ou qualquer coisa do gênero. Na verdade, sou a verdadeira vítima da história. E então…

Aconteceu. Não pude fazer nada. Não quero ser desagradável, mas tenho que dizer. Como falam por aí, a barraca armou, o júnior cresceu, o ganso acordou etc, etc,etc.

    • Ai meu Deus, que que eu faço? – pensei. Caaaaaaalma cocada! Olha pro outro lado! Concentração! Para com isso! Volta! Ai meu Deus! O Tiririca! Visualiza o Tiririca! Credo! Nem o Tiririca desanima o bicho! Jesus, misericórdia! Ai ai ai, está vindo uma família, com duas crianças! Eles vão me ver assim! Pensa, pensa, PENSA!!

O que aconteceu depois foi tão rápido que mal me recordo para escrever. Num espasmo fui parar dentro da água, que rapidamente me cobriu a cintura. Antes que pudesse me sentir aliviado, uma onda que deixaria muito surfista com um sorriso de orelha-a-orelha me atacou. Rodei, rodei e rodei. Raspei as costas no chão, bebi muita água e apaguei.

Quando acordei, estava recebendo uma respiração boca-a-boca de uma garota linda com mais ou menos 1,67 de altura, talvez uns 55 quilos, negra, cabelos e olhos castanhos, com “tudo em cima”. Quase uma “globeleza”…

    • Ai meu Deus -pensei – de novo não!

    Robson Ribeiro

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