A linha tênue entre o sonho e o pesadelo

Faltavam 20 minutos pra meia-noite, era sexta-feira e a rua estava atipicamente calma – o boteco não tocava forró, nem música ao vivo; nenhum carro tocava funk em volumes insanos; nenhum vizinho brigando. Era noite de lua cheia e fazia muito calor. Eu estava na cama, deitado, naquele estado semi-consciente que a gente fica quando tá muito cansado mas não consegue dormir:

“…É, dessa vez o Jack tá perdido. Quero ver como ele vai descobrir quem é o traidor antes de matarem sua filha… Amanhã o dia tá cheio, graças a Deus. Até que a gente tá conseguindo bastante alunos de violão – ufa! As bandas também têm aparecido pra ensaiar, acho que esse mês a escola paga suas próprias contas e ainda sobra um pouco…A Ná já tá dormindo. Tadinha, tem sido muito puxado esse trabalho novo dela…”

“…Que barulho foi esse?…Hum, acho que não foi nada, senão o Mané estaria latindo. Desde que invadiram a escola da primeira vez e nós passamos a dormir aqui nos fundos eu não passo uma noitezinha sequer sem essa apreensão. Mas Deus há de proteger a gente…”

De repente, sem nenhum aviso prévio, ouvi um barulho na porta do quarto, alguma coisa raspando-a e forçando-a:

“…Mas esse Mané é um cãozinho sem-vergonha, tá tentando entrar aqui no quarto de novo. Eu sei que o cocker é uma raça muito carente, e sei que nós o acostumamos a dormir com a gente. Mas essa edícula que chamamos de “quarto” já é pequena demais pra mim e pra Ná – não dá pra dividir com o Mané. Ademais, é importante que ele durma lá fora pra – por que ele tá latindo desse jeito? Não é um latido normal, como aquele que late pros gatos. Esse tá mais bravo, mais urgente. Acho que vou ver o que é…”

Levantei da cama e dei uma espiada na janela:

“Ah filho da puta!”

Sai correndo, o Mané atrás de mim, latindo muito. Entrei na casa principal do terreno – onde era nossa escola de música – pela porta dos fundos, que dava acesso à recepção (onde ficava também a porta pra rua). Peguei a primeira coisa que vi pela frente.

O Mané voltou, foi avisar a “mamãe” dele.

Com o cabo da vassoura em riste virei-me pra porta de acesso ao corredor, que por sua vez dava acesso às salas de aula. Ele já estava lá, e não pôde conter a cara de espanto ao me ver – talvez esperasse que a escola estivesse vazia como da outra vez que entrou e fez a festa (levou quase R$ 5000,00 entre equipamentos e instrumentos). Eu já tinha perdido o controle.

Quebrei o cabo da vassoura na cabeça dele e o agarrei pelo pescoço antes que pudesse reagir. Nessa posição, dei-lhe alguns socos no rosto enquanto o apertava com o outro braço, sufocando-o. Nessa hora a Ná apareceu na porta dos fundos, o Mané junto, latindo.

    • AI MEU DEUS! – ela gritou. Talvez o grito mais desesperado que eu já ouvi.

Ele aproveitou minha distração e se desvencilhou de mim. Correu em direção à porta dos fundos – onde estava a Ná – com esperança de fugir por ali. Corri no seu encalço. No quintal, ele percebeu que não tinha por onde sair e resolveu negociar:

    • Abre a porta que eu vou embora – o nariz dele sangrava.

Eu só queria vê-lo longe da minha família. Foi exatamente o que eu fiz. Ao ver-se livre, ele desdenhou: “falou trouxa!”.

Tranquei a escola.

Tentei me acalmar.

Tentei acalmar a Ná.

Tentei acalmar o Mané.

Liguei pra polícia, que demorou cerca de uma hora pra atender nosso chamado. Quando chegaram, expliquei o que aconteceu: “…então eu olhei pela janela do quarto e vi uma luz acesa na sala de aula, onde um vulto mexia nas coisas dentro do armário. Saí correndo e…”.

Não é preciso dizer que a polícia não fez nada.

Naquela noite não conseguimos dormir.

Um mês depois fechamos nossa escola – e assim acabou-se nosso sonho.

Robson Ribeiro

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2 Comentários

Arquivado em Crônica

2 Respostas para “A linha tênue entre o sonho e o pesadelo

  1. Conto policial?
    Talvez não fosse um pesadelo, só um sonho avisando: hei, tranque as portas, coloque alarme, faça um seguro p/ os instrumentos musicais, não revide a não ser que vc seja imortal …rs..e por último favor eles merecem uma noite tranquila longe da escola….rs.
    Mesmo assim gostei.
    Brincadeiras a parte, falando sério agora (hum…minha cara de séria não é lá essas coisas, vc iria rir na primeira fala)…rs..mas tudo bem, hoje pensei sobre o desapego, como tudo doe dentro da gente principlamente as separações (seja elas como forem) e como somos vulneráveis diante das escolhas.
    O mundo gira, mais pode dar mil votlas que sempre volta aos mesmos lugares…rs.
    Beijos no coração (*_*) Jú
    Linda quinta.

    • Cara de séria? Eu não tenho cara de sério, por isso nunca sou levado a sério auhsausuhsas

      sabe o q ajuda? parar d pensar um pouco sobre esse negócio d despedida, desapego e o escambau. tô lendo o “nunca desista de seus sonhos”, do Augusto Cury. recomendo!

      beijo!

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