Em memória

A melhor lembrança que eu tenho de nós dois? Bom, a melhor lembrança que eu tenho de nós dois é, sem dúvida, daquele dia que fomos no Finsbury Park, em Londres. Mesmo hoje eu posso lembrar de cada detalhe.

Eu acordei 6:14 da manhã – bem antes do despertador, programado pras 7 em ponto. Nós tínhamos combinado sair as 8, então 7 era um horário razoável pra acordar. Mas eu acordei antes e, ansioso demais pra conseguir dormir de novo, eu levantei. Tomei meu banho e fui pra cozinha aprontar o café da manhã.

Acordei-te pouco antes das 8. Você não despertou de cara. Meio zonza – com sono – demorou um pouco pra entender o que eu fazia ali, em pé ao lado de sua cama com aquela bandeija nas mãos. Quando se deu conta, ajeitou o cabelo da melhor maneira que pôde, tateou o criado mudo ao lado da cama à procura dos óculos e, quando finalmente os colocou no rosto, sentou-se na cama e disse: “Você é maluco!”. Eu interpretei como um “obrigada”.

Esperei você se ajeitar na sala, lendo o horóscopo. A sinastria amorosa de escorpião e leão não é das mais animadoras quanto ao temperamento do casal, mas uma coisa me deixou contente. Dizia a frase: “…assim como escorpião, leão adora uma amor romântico.”. Sobre a previsão amorosa do dia, coisas muito ambíguas – como sempre – do tipo: “…se você está só, um novo amor pode aparecer. Se está acompanhado, um novo fogo ascender-se-á em seu relacionamento. Mesmo assim gostei da parte “um novo amor pode aparecer”.

Ouvi-te descendo as escadas, então fui te esperar ao pé. E a princesa desceu da torre mais alta bela como só ela poderia. Com seu cabelo preso num rabo-de-cavalo e sua franja penteada um pouco de lado, ela parecia flutuar em seu vestido branco de alcinhas. Eu fiquei ali, imóvel, hipnotizado com sua beleza, e o anjo – ao tocar o chão – perguntou: “vamos?”. “Sim”, respondi. Saímos.

O dia estava lindo. Era primavera na Inglaterra, e a temperatura girava – agradável – em torno dos 22 graus. Um dia quente, fora do comum mesmo naquela época do ano. O céu estava limpo, azul, e o sol radiante – tanto quanto eu, com tua presença. As árvores estavam todas verdinhas, assim como a grama, onde pequenas margaridas davam um colorido especial. Pessoas corriam pra lá e pra cá com seus IPODs, fazendo cooper, outras de bicicleta. Ao longe eu podia ouvir uma partida animada de futebol.

Nós nos sentamos debaixo de uma árvore – o que faríamos por todo o tempo que permanecemos na “Terra da Rainha”. E conversamos. Muito. Falamos sobre nossos irmãos, nossa família. Falamos sobre o mundo. Eu falei sobre mim, e você sobre você. E falamos sobre nós.

Nós estávamos numa época um tanto conturbada. Nem você, nem eu, queríamos algo sério (que ironia!). Eu estava me procurando, e você a si mesma. Mais tarde eu viria a entender: nós nos encontramos um no outro, naquele dia.

O sol já deitava no horizonte , dizendo-me: “ande logo, rapaz, que já são 9 da noite!”. É, os dias são mais longos mesmo, na primavera inglesa. Você pareceu ouvir o alerta, pois ficamos mudos ao mesmo tempo. Eu evitei teus olhos. Você evitou os meus. O silêncio perdurou por uma eternidade. Mesmo os pássaros calaram. Então eu cheguei mais perto, encurtei a distância. Você venceu a linha tênue que nos separava. Eu fechei os olhos. Busquei teu rosto com minha mão – eu sabia exatamente onde ele estava. Toquei-lhe a face de forma tão suave que pensei estar sonhando. Minha mão não precisou conduzir-te. Senti tua respiração próxima da minha.

E nos beijamos.

Hoje faz, exatamente, 47 anos que nós demos aquele primeiro beijo. Minhas pernas vacilam, logo menos vão me trair de vez. Mas eu simplesmente não podia deixar de vir. Ano após ano, mesmo depois que você se foi, eu NUNCA deixei de sentar ao teu lado pra recordarmos aquele dia, e renovarmos nossos votos. Não seria hoje que eu deixaria de fazê-lo.

Eu sei que você não vai gostar de ouvir isso – de novo – mas é verdade. Eu não vejo a hora de te reecontrar. Eu sinto a sua falta.

Robson Ribeiro

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4 Comentários

Arquivado em Conto

4 Respostas para “Em memória

  1. Robson…que belo conto! Triste e belo. Que amor bonito e verdadeiro.
    [Essa mistura de realidade com fantasia. Passado, presente e futuro encantam.]
    Você surpreende com os finais dos contos.
    Um amor assim pode acontecer de verdade. Meus avós ficaram casados 60 anos. Meu avô se foi há 3 anos e minha avó hoje com 90 anos se sente meio perdida sem a presença do vovô. Mas de alguma forma eles estão juntos.
    Por isso seu conto me emocionou tanto.

    Beijos
    Patricia

    • poxa! deve ser uma relação incrível, esta dos teus avós! sem dúvida eles continuam juntos!

      qnto a mim, acho q essa mistura ficção/realidade se deve ao fato d’eu estar sempre sonhando, mesmo acordado…

      obrigado de novo.
      beijo

  2. MarceloPai

    Eh… gostei!!!!??!!?!

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