Setembro

Cacete, como tá frio aqui, né? Muito frio. Tá nevando lá fora ainda? É, ainda tá nevando. E pensar que demos sorte de conseguir esta casa com telhado. Que situação de merda – dizer que tivemos sorte só por isso. Será que era melhor ter nos deixado capturar? Tá certo, vou parar com isso. Que frio! Como eu gostaria de acender uma fogueira.

Acho que peguei no sono de novo. É dia ou noite lá fora? Noite. Mas isso não importa mais, já perdi as contas – não sei se estamos aqui há dias ou semanas. Só me lembro que a comida acabou há três dias. Hahaha, “comida”. Eu sei que é uma tragédia, mas quem nunca riu da própria tragédia? É, concordo – geralmente rimos da tragédia alheia. Tá nevando ainda? Preciso esticar as pernas…É claro que eu não vou lá fora! Tá, tá! Eu sei que eles ainda estão procurando judeus, mas você acha que eles vão zanzar por aí com uma nevasca dessas? Pronto. Que delícia! Achei que meu corpo nunca mais sairia daquela forma de concha! Tá com fome? Eu vi um rato passando ali atrás – vou fazer uma armadilha. A isca? Boa pergunta.

Não tô conseguindo dormir – tá muito frio. E essa neve. Eu gostava da neve quando era criança. A gente montava bonecos, fazia anjinhos, brincava de atirar bolas de neve uns nos outros. Papai ficava uma arara conosco, mas fazer o que? Tínhamos de viver nossa infância. Ainda bem que o fizemos, vou sentir falta deles todos: papai, mamãe e meus dois maninhos. Será que morreram na bala ou no gás? Ah, não se preocupe – não tenho mais lágrimas pra chorar. Tá com frio? Eu daria tudo por uma coberta, uma lareira e uma bebida quente! Tá bom, vou parar de falar. Eu hein.

Tá acordado? Ouvi alguma coisa, acho que foi a armadilha. GRAÇAS À DEUS!! Não acredito! Estamos salvos! Cadê aquela pedra? Como assim, não sabe? Como vou matá-lo? Tem razão, nojo é um luxo que não posso me dar nessa situação. E depois, uma mordida dura menos de dois segundos – só espero que ele não me arranhe o rosto. Nunca pensei que esse bicho fosse tão saboroso…

Começou de novo. Por que será que eles insistem em bombardear este pedaço? Não tá destruído o suficiente? Sim, pode ser. Melhor tacar logo umas bombas pra preparar a tomada da cidade e, assim, poupar algumas vidas – melhor, poupar alguns peões. São os peões que vencem a guerra. Se pelo menos tivessem consciência disso… Que tal dormirmos um pouco?

Eu também tô com fome. Mas isso não é o mais perigoso – o ser humano pode aguentar um tempo sem comer, mas a falta d’água é pior. Pelo menos a gente tem essa neve toda pra “beber”. Você sabia que os russos inventaram uma forma “limpa” de matar? Eles sufocam o sujeito com neve, que derrete depois e acaba com qualquer vestígio da causa mortis. Muito inteligentes, os russos. Será que eles vão resistir?

Tá sentindo? Brisa maldita! Por onde será que tá entrando? Hahaha, tem razão! Essa casa mais parece um queijo suíço! Pelo menos ainda tem telhado. Já pensou essa neve toda aqui dentro? Que frio! AI QUE FRIIIIIIIIIO!

Ei, acorda! Fica de olho, vou dar uma espiada. Não, só pela janela, mas fique atento! Tudo deserto. Marca aí na parede. Segundo dia sem avistá-los. Terceiro. Quarto.

Uma semana sem que nenhum rato dê o ar de sua graça – nem a comida nem os nazistas. O que será que houve? Vou dar uma volta. Ah, relaxa! Nós já estamos mortos mesmo! Todo mundo morre no dia em que nasce, a diferença é o tempo que levam pra notar… Tudo bem, se você faz questão. Vamos!

    • Ei você! PARADO! Ponha suas mãos na cabeça e deite-se no chão. AGORA!
    • Ah meu Deus! Muito obrigado! Tenha calma, oficial, eu não sou um nazista! E nem o senhor, pelo que vejo. Deus abençoe a América!
    • Quem é você, e o que faz aqui?
    • Sou um sobrevivente.
    • Há mais alguém?
    • Não, só eu e este rapaz aqui.
    • Que rapaz?

    Robson Ribeiro

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2 Comentários

Arquivado em Conto

2 Respostas para “Setembro

  1. É…Robson você nesse conto tão real nos mostra uma situação em que somente ‘criando’ um mundo imaginário é possível sobreviver a crueldade do mundo real quando perdemos a noção do tempo e de onde estamos.
    A ilusão, ou a chamada ‘loucura’ é que nos leva a sobreviver em situações extremas ou não tantas.
    Você assistiu ao filme a ‘Vitta é Bella’? Acho esse filme lindo!
    Parabéns por mais um ótimo texto e siga em frente!
    Bjos
    Patricia

  2. Está entre os melhores filmes que já vi. É de uma sensibilidade que Hollywood jamais atingiu – e creio que jamais atingirá. Só quem de fato viveu aquilo pode nos contar como aconteceu. Está entre os melhores que já vi, ao lado de “Patch Adams”, ” A procura da Felicidade” e alguns outros que não me vẽm à mente agora.

    Obrigado por mais um comentário!
    Beijo!

    Robson

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