Campo de batalha

Eu estava sonhando muito gostoso! Sabe aquele sonho romântico, no qual o amor da sua vida (pelo menos o do momento) te nota, fala contigo, mostra interesse? Aquele sonho romântico em que rola uma sintonia entre vocês dois, os olhares brilham e se cruzam constantemente e os pensamentos parecem os mesmos? Aquele sonho romântico em que você a chama pra matar aula e passear no parque, e ela aceita, e lá se vão os dois pombinhos pro meio das árvores aproveitar a manhã que parece não acabar nunca, e ao mesmo tempo passar rápido demais? Aquele sonho romântico em que você acaricia o rosto dela como se fosse uma flor de pétalas delicadas (uma rosa), aproxima sua boca dos lábios dela o suficiente para que ela vença a última e tênue distância antes do beijo? Sabe aquele sonho romântico que sempre acaba na hora do beijo? Era um sonho destes que eu sonhava quando acordei repentinamente.

Não sei por que acordei. Abri os olhos, ainda meio abobalhado por conta do sonho, depois muito frustrado por conta do fim deste. Estava escuro e frio, o que indicava ser muito cedo ainda. Logo em seguida minha mãe levantou-se sobressaltada e sacudiu-se toda, parecia um cachorro saindo de um banho forçado.

Insatisfeita levantou-se, ascendeu a luz e “fez uma busca” em sua cama: mexeu e remexeu nos lençóis e cobertores, atrás de um inimigo oculto – pra mim inexistente. “Você tá cada vez mais doida” – falei. Resignada, mas não convencida, ela apagou a luz e voltou pra cama.

Foi quando eu ouvi. Não sei como descrever o barulhinho peculiar, parecia uma sacola plástica sendo amassada. Mais tarde minha mãe diria que era o som de um helicóptero.

Mamãe, aliás, deu-me um susto dos diabos! Mas não a culpo, ela mesma tomou um muito maior que o meu, por conta do barulhinho. Deu um grito gutural, nascido de suas entranhas mais profundas, e saltou (com uma habilidade incrível para sua idade) em minha direção. Ascendeu a luz, e pude notar sua cara de pânico (acentuada pelo cabelo emaranhado, o inchaço facial característico de quem acaba de acordar e os olhos cheios de meleca – parecia a Solineusa, pessoa que homenageei com uma poesia homônima neste blog).

    • O que foi? – perguntei levantando-me, com urgência na voz.
    • Tem alguma coisa andando em mim! – respondeu-me, com histeria na voz.
    • A, pára mãe, vai dormir! Tá ficando velha mesmo!
    • OLHA LÁ!!!!!
    • O que, aonde?
    • LÁ!! DO LADO DA MINHA CAMA! AAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!
    • Calma mãe! É só uma barata (voadora)!

Na verdade parecia um morcego – não, um pterodátilo – mas eu não podia dizer, precisava acalmá-la e, mais do que isso, criar coragem pra salvar o mundo. Preciso admitir: morro de medo de baratas, especialmente as voadoras! Na verdade, tenho pavor de qualquer bichinho que possa caminhar livremente sobre minha pessoa sem que eu possa vê-lo ou impedi-lo – especialmente os voadores.

Enquanto eu procurava armamento pesado para lidar com o “Monstro do Lago Ness”, minha mãe – que não é boba nem nada – saiu de casa, ou pelo menos tentou.

    • AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!!
    • O QUE FOI MÃE?
    • TIROLÊS, SEU #%&#%#&! – Tirolês é nosso cocker, que ansioso pra ajudar deu outro susto em minha mãe, que por sua vez deu outro susto em mim.
    • Pô mãe, deixa eu me concentrar!

Achei o que procurava – meu tênis 43. Aproximei-me com muita cautela do inimigo, que parecia desdenhar de minha presença. Tentei parar a tremedeira mas não consegui. Concentrei-me o máximo que pude, mirei cautelosamente e…PAAAAAAAAAF!!

    • Ela correu pra lá! Pô Robson, não acredito que você errou! E agora?
    • Calma mãe, eu acho ela de novo.
    • OLHA ALI! NA CÔMODA!
    • Faz silêncio!

Refiz todo o procedimento anterior, desta vez um pouco mais seguro. Pensei comigo: posso errar uma vez, mas não duas! PAAAAAAAAAAAAAF!!

Que nojeira! Nunca vi uma barata tão cremosa! Blergh! Da onde saiu tantas asas?

Matei o bicho, mas fiquei com a sensação de que venci apenas uma batalha, não a guerra. Como não tinha mais clima pra voltar a dormir – tampouco sonhar – aprontei-me e fui pra escola.

Robson Ribeiro

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5 Comentários

Arquivado em Crônica

5 Respostas para “Campo de batalha

  1. miriam

    aí, marcelo, a segunda verdadeira q parece mentira! Na íntegra!

  2. Robson!
    Adorei. Você me levou até a cena do ‘crime’. Os seus contos envolvem mesmo. E ainda que não fosse verdade se tornaria pelo modo tão real e convincente que você descreve.
    Puxa! Além de ser despertado dos sonhos dos sonhos ainda teve que caçar uma barata!
    Bom aqui em casa sou a ‘assassina oficial’ de barata, lagartixa etc. Bingo, nosso Poddle toy’ não está nem aí dá uma latida e corre para o outro lado.
    Parabéns! Mais um ótimo conto!
    É legal sorrir logo pela manhã.

    Patricia

  3. Marcelo

    ahsiuhaisuahiushaisha
    imagino a mae:

    OOOOORRRGHHHHH

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