Seja bem-vindo, amigo conflito!

conflito
s. m.
1. Altercação, desordem.
2. Pendência.
3. Choque.
4. Embate.
5. Luta; oposição; disputa.

Acho que este dicionário esqueceu de mencionar a palavra “dor” nesta definição.
Ha algum tempo notei uma coisa: nós, seres humanos, só nos movemos quando há conflito – seja ele de qualquer natureza. Nós só crescemos através do conflito. Descobrir isto me fez muito mal. Afinal, por que só podemos crescer através do conflito e, por consequência, através da dor?
Em tudo que olho, eu o vejo sempre lá: relação de pais e filhos, conflito. Relação de amantes, conflito. Relação de irmãos, conflito. Há, então, conflito, porque há a amor? Não. Relação de chefe e subordinado, conflito. Relação entre desconhecidos, “que surpresa”, conflito. Há então conflito porque há relação. Isso me parece mais óbvio e lógico.
Ao longo da história (des)humana o conflito está sempre presente. Analisando a sociedade de forma parecida com que fez Aristóteles na sua “Política”, desde a família até o mais amplo círculo da vida social podemos encontrar o conflito. De uma briga doméstica a uma Grande Guerra – ele está lá, onipresente como o Criador.
Não gostava – falo no passado, e explico daqui a pouco – do conflito porque este sempre trouxe (e ainda traz) consigo uma grande (over)dose de sofrimento e dor, que geralmente chegam antes – e sem serem chamados – do crescimento. Como a longo prazo não basta cuidar apenas dos sintomas, foquei na causa do problema, e vi no conflito meu inimigo – apesar de ser um mau necessário.
Então passei a evitar o conflito a todo custo. Levei uma vida de cordeiro. Muito ganhei em doçura, e muito perdi em firmeza. E como diz aquela famosa frase atribuída a Che Guevara (digo atribuída porque perdi minha fé no pseudo-comunismo faz tempo), “Temos que endurecer sem perder a ternura”. É necessário que se mantenha a firmeza ao lado da doçura, como gêmeas siamesas. Descobri isso ha poucos dias.
Acontece que “eu subi a montanha mais alta”, como diria Bono Vox, e nela encontrei um mestre – até mesmo um mentor espiritual – que me deu uma valiosa lição. Valiosíssima! Numa única frase ele elucidou o meu conflito (olha ele aí).
Assim disse Martin Luther King Jr., famoso ativista negro norte-americano, que fez de sua vida uma luta contra a segregação racial – um câncer nos E.U.A. – e um dos maiores responsáveis pela estadia de Barak Obama na Casa Branca:

“Nós temos que mudar nossa forma de lidar com o conflito, sem violência, sem agressão”.

Mágico!
A teoria de não-agressão não é de autoria de King, mas sim de Henry David Thoreau, conterrânio de Martin. Consiste basicamente em não agredir seu opositor – porém sem abrir mão de seus direitos e necessidades. “Endurecer sem perder a ternura”. Ser doce e firme. E sem dor.
Mahatma Gandhi valeu-se deste conceito para libertar a Índia do domínio inglês, e serviu de inspiração para Martin, que alcançou seu intento da mesma forma. Martin, porém, foi assassinado antes de ver sua obra completa – e previu isso. Martin foi doce como um cordeiro, e firme como um cordeiro. Assim como Jesus.
Sinto-me mais à vontade com o conflito agora, pois descobri como lidar com ele: sem agressão! Não preciso evitá-lo, apenas ser firme e doce, sem violência, e assim desfrutar do crescimento que ele proporciona. Posso dizer que o conflito é necessário, sem necessariamente ser mau. Basta mudar a forma como lidamos com ele. Conflito aliás é uma idéia, e como qualquer outra, é boa ou má de acordo com o homem que a carrega.

Robson Ribeiro

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4 Comentários

Arquivado em Pensamento

4 Respostas para “Seja bem-vindo, amigo conflito!

  1. Olá Robson,
    Quando eu estudava direito – nas aulas de Teoria Geral da Administração – estudávamos tantos ‘Conflitos’. Tantas teorias… Mas os maiores conflitos realmente estão dentro de nós e nossos vários ‘eus’. E isso traz dor sim. [Experiência própria] Mas traz também soluções. Até que surjam os próximos. Se dizem que a dor ensina a gemer ela pode ensinar também a sorrir.
    Tenho certeza que você vai resolver seus conflitos da melhor maneira possível.
    Enquanto isso continue a escrever. Todos os gêneros. Pois escrever é uma ótima maneira de resolver os conflitos. Pelo menos é uma forma de desabafo.
    E você é bom nos versos sim. Filho de poeta…
    Desejo sucesso para você. Em todos os aspectos e escolhas. E siga em frente. Você tem o dom!

    Patricia

    • Acho o conflito complicado, mas agora sei que fugir dele não basta, temos é que saber lidar com o mesmo. Estou aprendendo.
      Fico feliz de saber que uma pessoa como você perde tempo lendo o que escrevo, e ainda mais tempo escrevendo palavras amigas.
      Quanto aos versos, falta-me muito! Eu brinco com as palavras como quem brinca com um quebra-cabeças. Bonito mesmo é quem passa sentimento, quem fala nas entrelinhas, cm vcs poetas fazem!
      Muito obrigado por mais um comentário!

      Robson

  2. blogdobocao

    Muito bom texto. Lidar com o conflito em si chega a ser desumano. Ou não…. será? Hmmmm, já estou em conflito, e pior: comigo mesmo!

    Acho que o que importa mesmo é entender o que leva ao conflito. Com violência ou não, compreender o que se defende é a primeira etapa para justificá-lo. Infelizmente a grande maioria dos homens não entende os motivos pelos quais entram em conflito, pois são frutos de lavagens cerebrais realizadas por “atiradores de elite mentais”.

    Política, religião ou dinheiro são talvez os maiores combustíveis de conflitos da humanidade, e no entanto são temas totalmente subjetivos e relativos ao ambiente do sujeito em questão. King e Gandhi chegaram lá por entender o que defendiam mais do que qualquer outro. É verdade que não houve conflito. Mas também é verdade que foi preciso muito conflito para livrar a Escócia da Inglaterra no século XIV, decapitar reis na França para acabar com a monarquia sedentária da idade moderna, ou ainda acabar com a vida de inúmeros soldados para extinguir o Holocausto da face da Terra.

    O mesmo é válido para nós mesmos: com a vantagem de que não precisamos acabar com nossas vidas nem sentir uma enorme quantidade de dor quando o conflito é interno. É como dizem: Pare e conte até dez. E entenda o motivo do conflito. Lutas muitas vezes levaram o homem a algum lugar. Outras, a lugar nenhum. Mas entender o real motivo sempre o levou a um só lugar: evolução.

  3. Pois é! Não nego que já foi necessário muito derramamento de sangue para chegarmos onde estamos. Na verdade, eu não nego nem que a Igreja Católica (entre outras instituições)foi uma peça importantíssima para o desenvolvimento da humanidade…
    Porém, nós vivemos em outra era. Não é mais necessário derramar sangue, e tampouco doutrinar as pessoas com essas religiões ultrapassadas.
    Precisamos de uma nova forma de lidar com os conflitos.
    Precisamos sim entender o real motivo dos conflitos, concordo plenamente com isso. É o primeiro passo. Mas depois dele, não devemos trilhar o caminho errado da violência – e falo desde uma simples discussão doméstica até uma guerra.
    Devemos dialogar sem ofensas, negociar sem coação!
    Claro que fica difícil pensar em salvar o mundo dessa forma (até porque sequer posso imaginar o que move o mundo do dinheiro, dos poderosos), mas quem sabe o que podemos fazer pelas pessoas próximas a nós (família, amigos), ou na comunidade onde moramos?

    Brigado pelo comentário Ermão! Te amo!

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