O filho (prodígio) do Brasil

Uma passagem de trem R$2,55. Meia-entrada no cinema, R$ 6,50. Combo pipoca e refrigerante, R$ 14,00. Assistir uma produção nacional sobre nosso presidente não tem preço! Com esse pensamento saio de casa rumo ao cinema mais próximo (não tão próximo assim).

A caminho do shopping, observo a periferia da zona sul de São Paulo. Casas inacabadas cor de vermelho-barro se amontoam à margem do rio pinheiros (cada vez que abrem as portas do trem o cheiro fétido do rio irrompe narinas abaixo queimando tudo, como uma dose de cachaça faz no esôfago), este acima do nível normal devido às fortes chuvas que castigam e alagam a cidade, deixando inúmeras pessoas sem nada, e outras tantas sem vida (literalmente). Esse quadro me faz pensar: por que o brasileiro não briga mais pelos seus direitos? Será que este povo só funciona à base de tapa? Será que tem algum General, Marechal ou qualquer “al” de patente mais alta disponível para dar-nos um golpe-de-estado bem dado e nos acordar?

No cinema descubro como alguns metros podem mudar radicalmente o cenário: o hall, lotado, e a sala, vazia. Com exceção de alguns velhinhos nordestinos orgulhosos de seu conterrâneo vitorioso, de um casal assanhado (que sempre sabe qual sessão estará vazia) e deste que vos escreve, a sala estava entregue às moscas (que babavam em seus assentos!). Ótimo, penso, vou assistir ao filme confortavelmente e sem…Nem posso terminar o pensamento. Entra na sala um grupinho (umas 4 pessoas) animadíssimo, disposto a falar durante todo o filme. E assim o fizeram.

E por falar em filme, vamos a ele. De cara, a mensagem “este filme foi produzido sem qualquer lei de incentivo do governo”. Lógico. Em ano eleitoral é imprescindível que eles deixem isso bem claro, principalmente por dois motivos: o filme é sobre o atual presidente, e teoricamente favorece a campanha de seu candidato na corrida (maluca) presidencial. Disse teoricamente porque não há propaganda eleitoral explícita no filme. Ele se limita a contar metade da vida de um homem (um grande homem). Mas há quem diga que todos aqueles patrocinadores que estampam suas logomarcas e logotipos na telona têm interesses oblíquos. Será?

Certo, verdade seja dita: o cinema não via um mocinho tão politicamente correto desde “Clark Kent”. De acordo com um periódico inglês, “não existe ninguém de coração tão bom”. De fato, sou obrigado a concordar – eles deveriam retratar também os medos, erros e fracassos do homem, afinal ele é só um homem que também está sujeito às intempéries da vida. Isso não derrubaria o mito, o valorizaria ainda mais.

O filme, porém, é inspirador. Nos faz querer dar um sentido para nossas vidas, querer sair de nossos apartamentos onde estamos “sentados no trono com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, como diria “a mosca da sopa”. As cenas dos discursos são de arrepiar!

Há também uma visão romântica daquele que nos governa hoje. Mas, “romantizado” ou não, até o mais alienado cidadão brasileiro sabe quem é Lula, aquele nordestino metalúrgico sem-estudo e sem-dedo, mas com sabedoria e persistência de sobra (sua mãe dizia “teima filho, teima que você chegá lá”), que saiu do sertão e chegou em Brasília pela porta da frente, em pé no famoso “Rolls Royce” preto conversível. O que este alienado talvez não saiba é que, com erros e acertos, o cara tá lá porque lutou, e muito. Foi preso pelo Dops e saiu aclamado pelo povo. E vivo, o mais importante.

Combo pipoca e refrigerante, R$ 14,00. Meia-entrada no cinema, R$ 6,50. Uma passagem de trem…Ops! Cadê o dinheiro que estava aqui? Sem dinheiro pra passagem (perdi em algum momento do passeio), volto andando pra casa. Duas horas de caminhada. Voltar andando pra casa pensando na vida depois de um bom filme…isso realmente não tem preço!

Robson Ribeiro

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