Arquivo do mês: janeiro 2010

O filho (prodígio) do Brasil

Uma passagem de trem R$2,55. Meia-entrada no cinema, R$ 6,50. Combo pipoca e refrigerante, R$ 14,00. Assistir uma produção nacional sobre nosso presidente não tem preço! Com esse pensamento saio de casa rumo ao cinema mais próximo (não tão próximo assim).

A caminho do shopping, observo a periferia da zona sul de São Paulo. Casas inacabadas cor de vermelho-barro se amontoam à margem do rio pinheiros (cada vez que abrem as portas do trem o cheiro fétido do rio irrompe narinas abaixo queimando tudo, como uma dose de cachaça faz no esôfago), este acima do nível normal devido às fortes chuvas que castigam e alagam a cidade, deixando inúmeras pessoas sem nada, e outras tantas sem vida (literalmente). Esse quadro me faz pensar: por que o brasileiro não briga mais pelos seus direitos? Será que este povo só funciona à base de tapa? Será que tem algum General, Marechal ou qualquer “al” de patente mais alta disponível para dar-nos um golpe-de-estado bem dado e nos acordar?

No cinema descubro como alguns metros podem mudar radicalmente o cenário: o hall, lotado, e a sala, vazia. Com exceção de alguns velhinhos nordestinos orgulhosos de seu conterrâneo vitorioso, de um casal assanhado (que sempre sabe qual sessão estará vazia) e deste que vos escreve, a sala estava entregue às moscas (que babavam em seus assentos!). Ótimo, penso, vou assistir ao filme confortavelmente e sem…Nem posso terminar o pensamento. Entra na sala um grupinho (umas 4 pessoas) animadíssimo, disposto a falar durante todo o filme. E assim o fizeram.

E por falar em filme, vamos a ele. De cara, a mensagem “este filme foi produzido sem qualquer lei de incentivo do governo”. Lógico. Em ano eleitoral é imprescindível que eles deixem isso bem claro, principalmente por dois motivos: o filme é sobre o atual presidente, e teoricamente favorece a campanha de seu candidato na corrida (maluca) presidencial. Disse teoricamente porque não há propaganda eleitoral explícita no filme. Ele se limita a contar metade da vida de um homem (um grande homem). Mas há quem diga que todos aqueles patrocinadores que estampam suas logomarcas e logotipos na telona têm interesses oblíquos. Será?

Certo, verdade seja dita: o cinema não via um mocinho tão politicamente correto desde “Clark Kent”. De acordo com um periódico inglês, “não existe ninguém de coração tão bom”. De fato, sou obrigado a concordar – eles deveriam retratar também os medos, erros e fracassos do homem, afinal ele é só um homem que também está sujeito às intempéries da vida. Isso não derrubaria o mito, o valorizaria ainda mais.

O filme, porém, é inspirador. Nos faz querer dar um sentido para nossas vidas, querer sair de nossos apartamentos onde estamos “sentados no trono com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, como diria “a mosca da sopa”. As cenas dos discursos são de arrepiar!

Há também uma visão romântica daquele que nos governa hoje. Mas, “romantizado” ou não, até o mais alienado cidadão brasileiro sabe quem é Lula, aquele nordestino metalúrgico sem-estudo e sem-dedo, mas com sabedoria e persistência de sobra (sua mãe dizia “teima filho, teima que você chegá lá”), que saiu do sertão e chegou em Brasília pela porta da frente, em pé no famoso “Rolls Royce” preto conversível. O que este alienado talvez não saiba é que, com erros e acertos, o cara tá lá porque lutou, e muito. Foi preso pelo Dops e saiu aclamado pelo povo. E vivo, o mais importante.

Combo pipoca e refrigerante, R$ 14,00. Meia-entrada no cinema, R$ 6,50. Uma passagem de trem…Ops! Cadê o dinheiro que estava aqui? Sem dinheiro pra passagem (perdi em algum momento do passeio), volto andando pra casa. Duas horas de caminhada. Voltar andando pra casa pensando na vida depois de um bom filme…isso realmente não tem preço!

Robson Ribeiro

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Monte Car(l)o

Já no trem a paisagem anuncia o que está por vir. O quadro em movimento é tão lindo que qualquer descrição é mera formalidade. De qualquer forma… De onde estou sentado é possível observar o mar delimitado pela serra e pelo céu. O sol irradia luz e vida para todos os lados, mas o calor só é sentido pelos olhos, afinal é inverno no sul da França. O céu limpo é de um azul puro como o próprio reino dos céus, e rivaliza apenas com o azul-verde-marinho d’água, onde os barcos deslizam com a altivez d’um monarca (não um monarca francês, certamente).

Estamos num trem que partiu de Nice com destino a Monte Carlo.

A cidade mostra porque é tão famosa: ao sair da estação de trem dou de cara com o mar (lindo). Não demora para o queixo cair. Caminhando um pouco pela cidade me rendo ao glamour das Ferraris, dos Porsches, Lotus e Lamborghinis distribuídos pelas ruas que, para meu espanto, param para atravesarmos as ruas a qualquer momento – não sei se por educação ou puro deleite dos condutores, ao notarem nossa admiração por seus carrões.

Na marina, Iates. Muitos Iates. Grandes, luxuosos, vazios. E muito caros. Os Iates são realmente incríveis, nos fazem querer subir a bordo, tocar, fotografar, levar pra casa. Literalmente.

Caminhamos pela praia, boquiabertos. A falta de ar não vem pelo cansaço (que cansaço? Estou em Mônaco!), mas sim pela beleza do local – se Deus criou o mundo de fato, este lugar ele não fez apenas com palavras, aposto que arregaçou as mangas e o pintou com mais habilidade e intensidade que Da Vinci ou Michelangelo sequer poderiam imaginar.

Neste momento a dúvida ganha espaço: será que o Criador perdeu tanto tempo nesta tela que foi obrigado a terminar de qualquer jeito certos lugares como a maioria das nações africanas, ou os países latino-americanos? Mas esses lugares também têm paisagens lindas…

Continuamos nosso passeio seguindo (ou tentando) o traçado do famoso circuito de Fórmula 1. Saímos da orla da praia e começamos a conhecer um pouco da cidade. Com alguns prédios incríveis e outros nem tanto, o luxo e o poder financeiro entram por nossos poros sem pedir licença. Neste lugar se encontra o metro quadrado mais caro do mundo. Isso não é obra Deus. Não diretamente.

Aqui a dúvida persiste: como podem os homens ser todos iguais, se alguns mal têm para comer, e outros mantêm este paraíso para visitar uma ou duas vezes ao ano? Os homens são todos iguais aos olhos de Deus? Aos olhos do homem? Será que é justo eu desejar viver neste lugar quando tantos “querem apenas sobreviver”? E será que é justo não querer se alguns o fazem?

Não sei.

É hora de voltar. A experiência foi incrível. Inesquecível. Inaceitável. Vou fazer o quê?

Robson Ribeiro

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2010

Inglaterra: ônibus de dois andares, nuvem, David Beckham, nuvem, metrô, nuvem, ingleses (poucos), nuvem, Big Ben, nuvem, chineses e indianos (muitos), nuvem, castelos, nuvem, Beatles, nuvem, família Real, nuvem, carros “Mini”, nuvem, Winston Churcill, nuvem, marinha, nuvem, Mr. Bean, nuvem, museu de cera, nuvem, Harry Potter, e… nuvem! Quanta nuvem! E todas carregadas; carregadíssimas. Os opostos se atraem e as nuvens também. Onde há fumaça há fogo, e onde há nuvem há mais nuvem! E Chuva. E neve. E gelo.

A Inglaterra, no inverno, é extremamente fria. Temperatura média de -3 graus centígrados em Londres. Mas o que impressiona mesmo é a frieza dos ingleses. Eles detestam gente, e são tão frios que são capazes de reverter o aquecimento global. Se você estiver andando devagar na calçada, o inglês te atropela. Se estiver andando rápido, não pare. Os ingleses detestam mudar de rumo.

Se estiver perdido, permaneça assim. É melhor.

Se quiser tomar uma bronca inesquecível, contrarie um inglês, principalmente um guia turístico ou algo próximo a isso. Você nem precisará falar inglês para entender o recado. Tim-tim por tim-tim.

Cliente por aqui é criminoso, e as punições são severas. Se pedir informação e for réu primário, recebe uma cara feia; se for reincidente a punição é muito pior! Uma resposta, mas não uma qualquer. Uma resposta tão mal-humorada que te faz pedir desculpas por querer gastar seu dinheiro naquele lugar.

O inglês é tão avesso ao trabalho com o público que em todo lugar você pode notar máquinas fazendo o “corpo-a-corpo” com o cliente. Na Inglaterra você lida com mais máquinas que o mocinho de “Transformers”. Desde que tenha um bom cartão de crédito ou débito. Aliás, depois da certidão de nascimento, o próximo documento do inglês é o cartão.

Se está com fome, pode comprar uma batata-chips na máquina. Escolha o sabor e passe o cartão. Se está com sede pode comprar um refri-cola. Escolha o sabor e passe o cartão.

Para carregar o seu “oyster” (cartão para uso no transporte público londrino, semelhante ao bilhete-único paulistano), adivinhe: Passe o cartão e…passe o cartão.

Vai ao shopping? Então você tera de apertar botões para liberar a entrada do carro no estacionamento, pagar o estacionamento numa “máquina-de-pagar-estacionamento” (insira seu cartão) e finalmente liberar a saída do carro. Ufa! Seria tão simples se tivéssemos um robô R2D2 ao nosso lado…

Aqui existem lojas maravilhosas onde você entra, procura pelo catálogo, procura no catálogo, digita o código do produto numa maquininha e bingo! Sua compra está finalizada, basta passar o cartão e pegar a muamba. Nada de vendedor, nada de papo, nada normal.

Se precisar ir ao mercado, prepare-se! O mercado é o mais perigoso! Aqui fica a base das máquinas, e a máquina-”rainha”! O “self check-out”! Numa tradução livre, significa cheque-se você mesmo sua saída e se vire com o pagamento de suas próprias compras, seu cliente desocupado, miserável e $@#$%@$#@%@%!!!! O “self check-out é um complexo maquinário que substitue o caixa do mercado.

No self check-out é você mesmo quem dá bom-dia (tarde ou noite), oferece a si mesmo recarga de celular, pergunta a si mesmo se deseja CPF na nota, passa os produtos, pergunta se tem cartão-desconto, pergunta “algo mais, senhor”, paga (com o cartão de crédito) e grita para si próprio “ senhor, você esqueceu a sacola”! E não recebe nada por isto.

Aqui as máquinas fazem de tudo. Se deseja um café espresso, a máquina faz. Se quiser comprar um livro procure a máquina mais próxima. Se quiser sexo, escolha a cor do cabelo, a cor dos olhos, a música, o local, a data especial e…passe o cartão! A Inglaterra e suas máquinas montam um cenário futurístico tão bizarro que deixaria George Orwell e Aldous Huxley de cabelo em pé. Mas provalvemente uma máquina resolveria isso para eles.

Robson Ribeiro

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